Olhar atento (por Patrícia Diguê)


Ficou lá

Não.

Porque nosso momento passou.

Ficou lá.

Tivemos nossa chance. Nossas chances.

Somos outros.

Juntos, os coracões ficaram lá.

Congelados num instante.

Um café, um filme, um amanhecer.

Juntos, éramos.

Passado imperfeito.

Amo o que foi. Mas ficou lá.

Hoje, não há nada.

Ficou tudo lá.

Trilha deste post: http://www.youtube.com/watch?v=WgkkvtVuBDE&feature=channel



Escrito por Patrícia Diguê às 21h35
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Reflexões capitalistas

Já vou avisando que este texto não chega a lugar nenhum, se o que você procura são respostas.

Uma vez alguém que não lembro agora fez um comentário muito sábio sobre aquelas pessoas que vivem falando que adoram o que faz, como se estivessem em um patamar existencial superior ao da maioria dos mortais que xingam quando acordam pra ir ao serviço e não veem a hora de chegar a sexta-feira. Ele (acho que era homem) desafia estas pessoas a responderem se continuariam a fazer a mesma coisa que fazem hoje caso ganhassem na Megasena, tipo acordar cedo, bater cartão, ter 15 minutos pra comer, quando muito etc. Boa. Duvi-de-o-dó! A teoria dele virou uma das minhas frases feitas. Adoro soltar isso quando alguém vem com essa conversa, e depois rir sarcasticamente diante da óbvia reação.

É claro que existe certo prazer em se sentir útil ao dar um pedaço de sua existência para a sociedade através de um trabalho. Mas isso não deveria significar que a gente deve doar a maior parte e, pior, nossos melhores anos, não é? Pensando nisso, acho que a gente só trabalha mesmo porque não tem outro jeito e porque é bonito falar que se faz alguma coisa. Hugh Grant, no filme “O grande garoto” (About a boy) encena diálogos hilários quando questionado sobre o que faz na vida. “Nada”, ele sempre tem que responder. “Mas você nunca fez nada?”. “Não, nada”. É que ele vive dos direitos autorais de uma música que o pai inventou décadas atrás. E não consegue entender como as pessoas conseguem cumprir com as atividades básicas da vida e ainda por cima trabalhar, já que as dele tomam todo o seu dia. Realmente, nossa sociedade precisa evoluir para um estágio em que tenhamos tempo para o que há de mais básico e importante na vida, como cozinhar, comer, ir ao banheiro, tomar banho, cuidar da família, dormir, se exercitar, ler, visitar os amigos, passear com o cachorro, comprar pão à tarde na padaria, plantar uma árvore, escrever um livro, fazer um filho... coisas que a gente tenta espremer em meia dúzia de dias de folga por mês, durante os quais se está tão cansado que acaba-se não fazendo quase nada, exceto reclamar que não tem tempo.

Uma colega comentou uma vez que só percebeu que a vida dela tinha se resumido a trabalhar quando folheava um álbum de fotografias da família e notou que não aparecia na maioria delas. Aniversário da Aninha, estava de plantão. Casamento do Paulo e da Ruth, viajando a trabalho. Natal na casa da tia Julia, não foi porque tinha que trabalhar no dia seguinte. Além disso, ela se queixava que todo o restante na verdade eram apenas atividades coadjuvantes ao trabalho. Na hora de comprar roupas, era para trabalhar. Maquiagem, discreta para trabalhar. Sapatos? Confortáveis para trabalhar. De manhã, tomava banho para ir trabalhar. À noite, lia papéis para o trabalho do dia seguinte. Almoço? So um combustível para continuar trabalhando.

No futuro, talvez consigamos viver sem trabalhar tanto, afinal tem gente demais no mundo e não vai haver emprego para tanta gente. Deveríamos ser remunerados por várias coisas que hoje fazemos de graça. Cada vez que vissemos uma publicidade, por exemplo, afinal, a gente potencialmente iria gastar nosso dinheiro com o tal produto. Sem falar que em vez de pagar para ter canais em casa, deveríamos receber para isso, já que somos bombardeados com anúncios. Quando fizéssemos um filho, afinal isso dá um trabalhão. Mães deveriam ter um gordo salário. Ou, se o planeta já estivesse muito cheio, pagar para quem não tivesse filhos. Ganhar pelo lixo que se recicla (isso já é realidade, leia texto abaixo). Receber em vez de pagar inscrição para participar de eventos esportivos, já que as empresas fazem muito dinheiro com a publicidade. Ser pago para usar tal marca de celular ou provedor de internet, afinal, eles também nos usam para vender seus serviços, doar sangue e até pegar ônibus. São boas ideias para um próxima campanha eleitoral. Se alguém estiver interessado, elas também estão à venda. Yes, we can.

Videoclipe para este post: http://www.youtube.com/watch?v=i3fqjJVXh5o&NR=1



Escrito por Patrícia Diguê às 19h59
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Dinheiro

Este é um tema bem difícil, mas vou me arriscar.

Aconteceu de novo no último domingo. Mais uma vez tive que explicar porque não estou em outro país para “fazer” dinheiro. Mais uma vez provoco espanto e, de novo, termino a conversa com uma sensação entre irritada e incomodada. Irritada com o fato das pesssoas só encontrarem sentido nele e incomodada porque, nestes momentos, coloco em dúvida as minhas metas. Fico pensando se não estaria sendo estúpida por não aproveitar que estou em um país de moeda mais forte para juntar alguns trocados. Afinal, quase todo mundo à minha volta esta aqui só para isso, não importa a nacionalidade. E é incompreensível para eles (e extremamente cansativo para mim justificar) o fato de eu não ter um tostão e ainda estar feliz da vida.

Sempre que isso acontece acabo rebobinando a fita (os muito jovens não devem saber o que é isso porque só conhecem DVD) deste um ano e meio passado para checar se não fiz nada de errado. E chego à conclusão de que de jeito nenhum teria conseguido trabalhar ainda mais.

Embora nem todos os meus momentos aqui tenham sido literalmente trabalho e, consequentemente, não me trouxeram dinheiro, eles foram importantes peças deste meu atual quebra-cabeça e igualmente me mantiveram ocupada.

Gosto de pensar que existe um plano muito maior na vida de cada um, por isso que viver constantemente atras de “x” para comprar “y” me parece tão sem sentido. Opto por continuar acreditando que o dinheiro é mero detalhe ou uma natural consequência de uma vida pautada por valores e objetivos mais nobres. Acho que vou continuar preferindo, portanto, o espanto por não ter nada à inveja por ter acumulado muito.



Escrito por Patrícia Diguê às 08h09
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Duas medidas, uma lição

Duas notícias recentes na mídia inglesa me deram uma importante lição. Pretendo colocá-la em prática na primeira vez que entrevistar uma autoridade pública.

Muito e há muito tempo se fala da importância em se incrementar o transporte público no combate aos congestionamentos e, consequentemente, à poluicão. Quando se levanta o assunto, normalmente outro importante personagem além do ônibus acaba aparecendo na história: a bicicleta. Desde que cheguei em Londres, me deparo com cartazes de incentivo ao uso do veículo e também visando educar os motoristas para prestar atenção nos ciclistas. Sem falar em passeios ciclisticos, sites que oferecem mapas e rotas, sorteios de bicicletas e mais sinalização nas ruas. Apesar de tudo isso, posso dizer, com conhecimento de quem anda pedalando por aqui há um ano, que em Londres há pouca gente que usa a bicicleta para se locomover diariamente. Trânsito? Frio? Não sei mesmo. Só sei que na semana passada finalmente “ouvi conversa” e não “blá blá blá”. O governo pretende baixar os impostos para a fabricação das bicicletas, o que as tornariam muito mais baratas ao consumidor. “Olha só, pra isso que serve o Estado”, pensei. O resto é “perfumaria”, usando o jargão jornalístico usado para reportagens de menor relevância. Este pode ser o primeiro efetivo passo para conquistar a população, porque somente tentar convencê-la com frases de efeito definitivamente não vem funcionando.

Agora há pouco, na TV, mais uma ideia brilhante. Em uma área da cidade, a subprefeitura está dando cupons aos moradores, para serem gastos em supermercados e lanchonetes, em troca do lixo reciclável. Com isso, evita excesso nos aterros sanitários e consequentes multas ambientais. A dona de casa entrevistada parecia extremamente motivada com a possibilidade de juntar até 150 libras (cerca de R$ 500,00) por mês em cupons. Se lixo também é dinheiro, então o sistema faz todo sentido. A iniciativa chamou a atenção do governo londrino, que quer estendê-la a toda a cidade. Talvez este seja o arranque que faltava para atrair para a reciclagem aqueles que não foram convencidos através de simples campanhas de educação. E olha que reciclar aqui é uma operação relativamente fácil se comparada à do lugar de onde venho. Há contêineres de recolhimento por todo lugar. Em frente à minha casa tem. Só preciso atravessar a rua e jogar o plástico na caçamba de plástico, o jornal na caçamba de papel e assim vai.

Daqui pra frente, portanto, não engulo mais discurso de que a culpa disso e daquilo é da falta de educação das pessoas. E nem vou ficar satisfeita em saber que estão ensinando isso na escola, porque educar é providência de longo prazo. Fulaninho vai ter que explicar o que vai fazer pra mudar o hábito de quem ja saiu do Ensino Fundamental faz tempo e não vai morrer tão cedo. Sim, é possivel.



Escrito por Patrícia Diguê às 19h41
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


 



Meu perfil
BRASIL, Sudeste, SANTOS, Mulher, de 26 a 35 anos, Portuguese, English, Política, Arte e cultura, Esportes
MSN - pdigue@uol.com.br
Histórico
    Outros sites
      A Tribuna
      Portal Imprensa
      BBC
      Associação dos Artistas do Litoral Paulista
      Agência Envolverde
      Ativo
      Nirley Sena Fotos
      Reexame (Rafael Mota)
      Blog da Thais Lyra
      O Bestario
      Quase Nada (Douglas Willians)
      Blog 50 por Duas (Valéria Malzone)
      Blog No limite da razão (Flávia Saad)
      Blog Lídia Mello
      Blog Por Trás do Lide (Evandro Siqueira)
      Blog do Venceslau
      Cine Blog (Gustavo Klein)
      Blog Esquizofrenia (Bruno Guedes)
      Blog Fashion FAB (Carolina Muniz)
      Blog Nove Cidades (Andrea Rifer)
      Marcelo Padron (caricaturas)
      Finalista do Troféu Mulher Imprensa/2006
      Vídeo You Tube
      Prêmio AMB/2006
      Reportagem vencedora do Prêmio AMB
      Prêmio CPFL/2006
      Reportagem vencedora do Prêmio CPFL/2006
      Reportagem vencedora número 2
      Matéria: "Barril de pólvora" (10/01/06)
      Matéria: "Menos verde" (24/01/06)
      Matéria: "Elementar, meu caro..." (06/02/06)
      Matéria: "Energia do lixo" (05/06/06)
      Matéria: "Santistas deverão ter gás natural em um ano" (28/06/06)
      Matéria: "Aficionado por TV mantém 13 parabólicas no quintal" (12/08/06)
      Matéria: "O futuro do emprego" (03/02/06)
      Matéria: "Lei poderá disciplinar paisagem urbana" (08/10/06)
      Matéria: "PCC - famílias serão indenizadas" (23/11/06)
      Matéria: "Homem armado invade a Câmara" (24/11/06)
      Matéria: "Coveiros são testemunhas do cotidiano dos cemitérios" (02/11/06)
      Matéria: "Especialistas apontam falhas na Progressão Continuada" (04/12/06)
      Corredor dará a volta ao mundo em 180 dias (17/06/2007)
      Matéria 04/11/07 - Santos falha em mercado para público GLS
      Matéria: "Cidades começam a corrigir falhas contra o meio ambiente" (07/01/2008)
      Matéria (21/01/2008): "Construções sustentáveis ganham espaço"
      Matéria (10/02/2008): "De olho nos efeitos do carbono"
      Conheça o aperto da vida em um submarino (06/04/2008)
      Materia (29/08/2008): "O desafio de Londres"
    Votação
      Dê uma nota para meu blog