Cheiro de ralo
Sempre me provocou reflexão as mil artimanhas e mecanismos de que o ser humano lança mão para disfarçar justamente o humano que tem em si. Refiro-me aos cheiros e fluidos que todos nós exalamos. À parte a óbvia e indispensável necessidade de higiene por meio das substâncias químicas que matam as bactérias, também temos a mania de botar sachê e perfume por todo canto, principalmente onde esses cheiros evoluem para um estágio ainda mais humano, o fedor. Enfim, dou essa introdução para compartilhar aqui o mais brilhante parágrafo que li em um livro nos últimos tempos. A seguir:
“As privadas nos banheiros modernos saem do chão como a flor branca do nenúfar. O arquiteto faz o impossível para que o corpo esqueça sua miséria e para que o homem ignore o que acontece com os dejetos de suas entranhas quando a àgua da caixa os leva gorgojelando cano abaixo. Os canos dos esgotos, ainda que seus tentáculos cheguem até nossos apartamentos, são cuidadosamente escondidos de nossos olhares e nada sabemos acerca dessas invisíveis Venezas de merda sobre as quais estão construídos nossos banheiros, nossos quartos de dormir, nossos salões de festas e nossos apartamentos.” (“A insustentável leveza do ser”, Milan Kundera, página 159, 1983).
Escrito por Patrícia Diguê às 18h26
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