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Mas eu te amava
Quando te conheci, seus cabelos cheiravam a escapamento e seu perfume era o do desodorante mais barato da farmácia da esquina. Mas eu te amava. Quando te conheci, nosso ninho de amor era um colchão ja ondulado pela idade avançada e nossa trilha sonora vinha de fitas cassete gravadas de discos de vinil. Mas eu te amava. Caetano, Cult, U2 estavam todos na mesma seleção após longas horas em frente ao aparelho de som. Suas camisetas muitas vezes cheiravam a gaveta e você fazia a barba com espuma feita de sabonete Lux. Mas eu te amava. Lembro que te amava mesmo quando usava uma zorba sem elástico, uma camiseta com furo ou uma meia trocada. Quando te conheci, as flores que ganhava vinham do fundo do quintal e comer pizza fora era em ocasiões especiais. Mas eu te amava. Quando te conheci, você usava tenis, não sabia dar nó em gravata nem limpar direito a unha do pé . Mas eu te amava. Naquela época, seus cabelos batiam no ombro, seu peito cheirava a parafina e eu tinha que passar horas te esperando na praia. Ainda assim, te amava Te amava até com touca de banho cor-de-rosa, blusa do avesso ou calça um número maior. Até quando esquecia as datas especiais, pechinchava cinquenta centavos ou alugava um filme repetido. Naquela época, eu acabei concordando que não ter carro era descolado, que ir à praia com chuva podia ser interessante e que acampar era super confortavel Mas porque eu te amava. Quando você contava a mesma história milhares de vezes, não ria da minha piada ou não levava a sério minha TPM, ainda assim eu te amava. Quando te conheci, só te chamavam pelo primeiro nome, seus amigos chegavam sem avisar e no fim do ano você foi papai noel. Hoje, não te conheço mais. Mas, por favor, nunca se esqueca: Eu te amava.
Tema musical para este post: http://www.youtube.com/watch?v=SMFlnTm6e7U&feature=related
Escrito por Patrícia Diguê às 12h21
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Os inúmeros Jeans de Londres
Não tive como não me emocionar hoje ao assistir ao trailer do filme “Jean Charles”, sobre o brasileiro que foi assassinado em Londres após o atentado ao metrô em 2005, por ter sido confundido com um terrorista. Até chorei e não vejo a hora de assistir. Emocionei-me por ver naqueles personagens as pessoas com quem convivo todos os dias, os inúmeros sonhadores que largaram tudo para ter uma vida mais ou menos digna. É triste constatar que o Brasil, de país que atraiu tantos imigrantes por mais de um século, agora se transformou em fonte de mão-de-obra barata. “Aqui brasileiro é que nem Gremlim, se jogar água nasce mais uns trezentos”, fala o Selton Mello na pele de Jean. Verdade, em Londres você ouve português por todo lado. Dizem que é o terceiro lugar com mais brasileiros no exterior. Em outra cena, Vanessa Giácomo, no papel da prima de Jean, se atrapalha no restaurante onde arrumou emprego por não saber falar inglês. Outra triste verdade: não é difícil encontrar conterraneos vivendo aqui há muitos anos e que se comunicam muito mal na língua da rainha. Pelo trailer, vai ter tudo que a comunidade brasileira na Inglaterra enfrenta, como problemas de documentação e o medo da deportação, a falta de dinheiro e a busca por emprego, além dos sonhos de viajar ou abrir um negócio no Brasil, a vontade de ajudar a família que ficou, a saudade, o dilema entre permanecer no exterior fazendo trabalhos pouco atraentes ou ir pro Brasil e não conseguir emprego e o saudosismo que bate quando deparam com algo essencialmente da terrinha, como mostra a cena em que Sidney Magal faz um show por aqui. Após uns meses fora, lembro de ter me divertido como nunca quando ouvi um funk dos mais baixos em um balada. Nas fotos do orkut, só festas e diversão. Nos dias de verdade, mais de um emprego, noites mal dormidas e o vazio da saudade. Ainda pelo filme, Jean era o alto-astral da turma, figura necessária em qualquer roda para dar força aos demais nos momentos de desespero. Uma pena ele ter estado àquela hora na Stockwell Station. Mais pena ainda, brasileiros terem que se sujeitar a tantas humilhações no exterior enquanto, nas manchetes dos jornais, o Brasil é só ordem e progresso. Parabéns à equipe do filme, que através da poderosa arma que é o cinema chama a atenção para a incompetência da polícia naquele momento, assim como a falta de eficiência em se punir os culpados, o que até hoje não aconteceu. Aguardemos a repercussão do lançamento por aqui. Estarei entre as primeiras da fila. Assista ao trailer: http://www.youtube.com/watch?v=1jNuJpMUIzY
Escrito por Patrícia Diguê às 21h13
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Lágrima azul (Blue tear)
Aquela noite. A última noite. Tivemos que decidir o que jantar. E antes de dormir, ainda na mesma cama, nos demos um abraço longo, de despedida, antes de partirmos para uma grande viagem. Uma longa caminhada cheia de pedras e sombras, em busca de nós mesmos. Um longo e mudo tchau. E foi quando vi raras lágrimas escorrerem dos seus pequenos olhos azuis. (That night. The last night. We had to decide what to have for dinner. Before going to bed, still on the same place, we hugged each other for a long time. It was a farewell, before starting a big journey. A long way full of stones and shadows, going after ourselves. A long and mute goodbye. And then I saw rare tears coming out from your small blue eyes.) Trilha sonora para este post ("Soundtrack for this post): http://www.youtube.com/watch?v=JMkFjYRWM4M&NR=1
Escrito por Patrícia Diguê às 21h55
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Por trás das badaladas do Big Ben
Londres é uma esquina onde os dramas do mundo inteiro se cruzam. Após um ano tentando desbravá-la e entendê-la, poderia dizer que o que a move e a mantêm forte são os sonhos. Sonhos com raízes em todo cantinho do mundo. Sonhos que decidiram passar por aqui, como um túnel espinhoso que se deve atravessar pra se alcançar um jardim florido e ensolarado. Comprar uma casa, abrir um negócio, conseguir um melhor emprego. É disso que falam as pessoas nos ônibus, metrôs, ruas, em suas dezenas de línguas e expressões peculiares. Vêm dispostos a qualquer sacrifício. Trabalham duro, fazendo o que os britânicos estudados em Oxford ou Cambridge nunca se sujeitariam, nem precisam. Embora o que se vê nos telejornais seja uma aparente linha dura contra a imigração, um número incalculável está aqui ilegalmente. Vêm como turistas e vão ficando. Esses são normalmente latino-americanos, asiáticos (lê-se Índia, Sri Lanka, Paquistão, Irã, Bangladeshi etc) ou africanos (Tanzânia, Moçambique, Algéria, Marrocos, Zimbábue, Etiópia, Zâmbia, Angola, Nigéria, Líbia etc). Quem está ilegal e não quer apelar para trabalhos não-idôneos (como trabalhar com documentos falsos, por exemplo), fica com as piores vagas. Geralmente não falam nada ou muito pouco de inglês e nem se preocupam muito com isso. Têm mais de um trabalho aliás, pouco saem para se divertir, muito menos viajam, já que seriam barrados nas fronteiras, e enviam cada tostão que sobra aos seus países. Muitas vezes até sustentam suas famílias no país de origem. Uma brasileira de 20 anos, de Joinville, está nesta situação há um ano. Faz faxina em hotel e, no momento, o dinheiro serve para ajudar os parentes a pagar uma dívida. “Minha mãe está doente e meu pai desempregado, então tenho que ajudar”. O próximo passo é conseguir dinheiro pra pagar uma faculdade. “Passei em Publicidade e Letras, mas tive que abrir mão, não tinha como pagar”. Veio atrás de uma prima e não tem ideia de quando voltará pra lá. “Não posso agora, e também, para que voltar? Pra ganhar 500 reais? Se não conseguir dinheiro para a faculdade não adianta”. Um pouco acima desses na pirâmide, estão os cidadãos europeus, vindos principalmente do bloco pobre do continente, como Bulgária, Romênia, Polônia, República Checa, Hungria e até Portugal, Itália e Espanha. Eles legalmente podem viver e trabalhar no Reino Unido e entrar e sair quando quiserem, mas também ficam com o trabalho pesado. Você os encontra na construção civil, fábricas, empresas de serviços de manutenção e entregas, por exemplo. Nesta camada também estão os que têm dupla cidadania, como os inúmeros brasileiros com seus passaportes italianos e portugueses. “Não vejo como sobreviveria no Brasil”, diz a graduada em Administração que há 10 anos está fora do país. Após se formar, não conseguiu emprego e decidiu ir pra os Estados Unidos. Em situação ilegal, resolveu sair quando a fiscalização apertou após os atentados de 11 de Setembro e veio parar em Londres. Com cidadania italiana, esta na cidade há pouco mais de um ano e sustenta a família trabalhando em uma loja de roupas. O marido atua na construção civil. As filhas têm educação e saúde de graça. Os europeus vêm atrás da moeda mais forte do que o frustante euro, na opinião da maioria deles. “Trabalhei na Itália nove anos, mas não estava mais tão bom, então decidi vir para cá”, diz um romeno que vive há sete meses na cidade e é da equipe de limpeza em um hotel. “Meu serviço é fácil, só preciso pilotar uma máquina desse tamanho pra limpar o chão depois que o pessoal varre”. Mas não está contente. Queria poder ter seu próprio apartamento em vez de dividir casa com outras pessoas e também ter condições pra comprar um carro. “Ainda não consegui guardar dinheiro”. O conterrâneo dele está decepcionado. Ele lava pratos em um restaurante desde que chegou, há um ano, e diz que pretende voltar para o seu país em breve. “A libra está fraca, não dá mais pra juntar dinheiro aqui”. Mas o olhar perdido demonstra que não saberia muito o que fazer hoje na Romênia. Dentro da classe trabalhadora, estão ainda os braços dos milhares de estudantes que estão de passagem pela cidade. Uns vêm estudar inglês, outros fazer faculdade ou pós-graduação. Com exceção dos poucos afortunados que têm o privilégio de estudar no país sem precisar arrumar emprego, o restante trabalha duro. Sem poder legalmente ter um emprego de mais de 20 horas por semana, acabam arrumando serviços paralelos. Do contrário, vivem com um orçamento apertadíssimo, que mal dá para o aluguel de um quarto afastado do centro, transporte e comida. “Meu sonho é conhecer a França”, diz um jovem indiano que faz MBA e trabalha em uma loja no Centro de Londres. Enquanto come um número no Mc Donalds como jantar, conta que os pais o ajudam a pagar o curso e que provavelmente conseguirá um bom emprego quando voltar para casa. Os indianos, aliás, predominam na paisagem. Estão por toda parte e lotam as universidades. Adquirem empréstimos bancários, fazem a matricula e vêm. O que receberiam como salário minimo na Índia (R$ 200,00) ganham aqui em apenas dois dias de trabalho. Essa parcela de sonhadores você encontra, além das lojas do varejo, nos cafés, lanchonetes, restaurantes, em eventos, fazendo panfletagem ou entregando jornal. Por tudo isso que, circulando por Londres, você dificilmente será atendido por um inglês de verdade na rede de comércio e de serviços, com exceção dos próprios estudantes londrinos, que, muitas vezes, fazem também esses serviços mais pesados com objetivo de comprar um carro, viajar ou simplesmente ter mais dinheiro para roupas e baladas. Apesar que, ainda assim, são na maioria filhos de imigrantes, metade ingleses e metade outra coisa. Pessoas que, assim como os estrangeiros, também vivem nos subúrbios, fazem compras em supermercados populares e não viajam pela Europa nas férias. Por isso que, aqui, quando entro em um Burger King, Pizza Hut ou Star Bucks da vida, fico observando aqueles soldadinhos fazendo lanches, limpando o chão ou lavando o banheiro. Olho nos olhos deles pra tentar descobrir o que sonham. Apesar daqueles uniformes desajeitados que lhes tiram a personalidade, fico imaginando o quão brilhantes e admiráveis podem ser, quais obstáculos em seus países pobres e corruptos os levaram a atravessar tantas fronteiras e o quanto devem sofrer por estarem longe de quem amam. Vejo-me em todos eles e me alivia constatar que não estou sozinha na difícil tarefa de sobreviver em um mundo onde tão poucos têm tanto e o restante se arrasta para ao menos conseguir colocar comida todos os dias na mesa.
Escrito por Patrícia Diguê às 17h25
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A medida do logo
Uma telegráfica mensagem um ano e meio depois emergiu os sentimentos há muito enterrados. Saudade, paixão, raiva e tristeza subiram como lava de vulcão. Andou como zumbi naquele dia tentando reconstruir todos aqueles intensos momentos que tanto havia se esforçado para dissipar. Lembrou que aquela tinha sido a última vez em que havia dado uma verdadeira chance para um novo amor. Lembrou que a história teve até trilha sonora e telefonemas na madrugada. Lembrou também que inconsequente e cegamente dirigiu quilômetros em troca de apenas dois dias e duas noites. E ainda que, como nos contos de fadas, não se sentiu cansada nem arrependida. Conseguiu com dificuldade colar os pedacinhos daquele fim de semana em que se sentiu verdadeiramente viva. Também se lembrou da despedida. Nenhuma lágrima ou tristeza. Apenas singelo tchau entre pessoas que logo se verão novamente. Esquecendo que “logo” está entre as mais subjetivas das palavras.
Escrito por Patrícia Diguê às 10h23
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Drummond apocalíptico
Raramente incluo palavras de terceiros neste espaço. Mas topei com este poema e me arrepiei em perceber a capacidade de certas pessoas em traduzir a alma humana e interpretar a época em que vivem. Trabalhas sem alegria para um mundo caduco, onde as formas e as ações nao encerram nenhum exemplo. Praticas laboriosamente os gestos universais, sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual. Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas, e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção. À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas. Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer. Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras. Caminhas entre mortos e com eles conversas sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito. A literatura estragou tuas melhores horas de amor. Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear. Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota e adiar para outro século a felicidade coletiva. Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan. Elegia 1938 Poema da obra “Sentimento do Mundo” de Carlos Drummond de Andrade
Escrito por Patrícia Diguê às 21h15
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O dia em que Darwin casou
Na escola, pelo menos no Brasil, a gente aprende que o homem é fruto de um processo evolutivo dos mamíferos, que lá nos primórdios andávamos até de quatro, como cavalo, boi e porco. E também que, dependendo do meio, certas características em uma determinada espécie representam ou não sua sobrevivência na Terra e, consequentemente, a chance de transmitir essas características aos descendentes. Isso explica, por exemplo, porque girafa tem pescoco grande e porque cobra não tem pé, além de um monte de outras coisas. A gente deve aprender isso lá pela sexta série, na aula de ciências (ou teria sido no Ensino Medio?), quando a maioria de nós também ja ouviu, àquela altura, sobre a criação no homem no Jardim do Éden. Com certeza, com 12 anos, nossas sinapses não eram capazes de contrapor as duas teorias, sem falar que o ensino que tivemos não nos permitia muito fazer sinapse alguma. Tudo isso pra falar do meu amigo Charles Darwin. Trato-o como amigo por estar na terra onde ele nasceu, estudou, escreveu a Teoria da Evolução das Espécies e morreu, e também por ter passado três horas mergulhada em uma exposição dedicada aos 200 anos da publicação do seu principal livro. A mostra é uma viagem por seu pensamento, desde que começou sua coleção de besouros como estudante de História Natural em Cambridge até retornar do navio Beagle em sua volta pelo mundo, se recolher em sua casa de campo por décadas e ficar matutando porque, afinal, tantos animais da mesma espécie desenvolvem peculiaridades distintas conforme o lugar em que vivem, e porque raios os filhos se parecem com os pais, que se parecem com os avós, que se parecem com os bisavós etc. Saí do Museu de História Natural querendo pegar o primeiro voo para as Ilhas Galápagos. Mas aí o pensamento foi se acalmando e me deu vontade de compartilhar aqui dois aspectos da exposição, um ligado à sua personalidade e outro à sua vida pessoal. Tudo bem que ele era rico, estudou em boas escolas e entrou na melhor universidade. Teve sorte, diriam. Mas não se pode chamar de sorte o fato do cara ter topado embarcar em uma exótica expedição pelo mundo sem receber um só tostão por isso. Pelo contrário, a família ainda teve de, digamos, “patrociná-lo”. Os pais, aliás, eram contra aquela ideia maluca, então Darwin teve um trabalhão para convencer todo mundo. Vencida esta etapa, teve poucos meses para se preparar, levando consigo somente uns instrumentos rudimentares e uma pistola. O rapaz de vinte e poucos anos foi indicado por um professor da universidade (a Inglaterra queria um naturalista no grupo visando aprimorar a elaboração de seus mapas). Moral da história: Muitas vezes erramos em chamar de sorte vitórias alheias sem atentar para o esforço pessoal que levou aquela pessoa a estar no lugar certo na hora certa. Puro desdém de quem não tem coragem suficiente para tomar as rédeas da vida e se conforta em atribuir à sorte o sucesso de outras pessoas. Outra passagem curiosa da vida dele ocorre na volta da viagem. Embora tivesse certeza sobre o rumo que sua vida científica iria tomar, entrou em um profundo dilema sobre se deveria ou não se casar. Acabou cedendo. Escreveu para uma prima solteira lhe pedindo a mão. Ambas famílias concordaram e o casório aconteceu. Tiveram vários filhos e um casamento até que a morte os separou. Em vez de passar a achar que a família havia se tornado um empecilho para o livre desenrolar de sua teoria, ele praticamente “usou” todo mundo em seus estudos. Nos seus livros, cita evidências baseadas em sua vida doméstica, obtidas a partir da observação do crescimento dos filhos ou das fotos de família, onde todos se pareciam muito uns com os outros. A primeira lição que tiro desta parte é que até as mentes brilhantes se veem encurraladas entre abrir mão de seus projetos pessoais e dividir a vida com um marido ou esposa, o que traz conforto para nós, simples mortais. A segunda é que, caso não consiga resistir e acabe se entregando ao enlace matrimonial, que procure tirar o melhor proveito disso, em vez de ficar reclamando a liberdade que perdeu.
Escrito por Patrícia Diguê às 11h58
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Braços sem fim
Você estava deitado na cama nú quando saí do banho gelado. Tirei a toalha e me deitei confortavelmente sobre você como uma peça de Lego que é feita para se encaixar perfeitamente na outra. As gotas d'agua do meu corpo te umedeceram e refrescaram. Nos demos um abraço lento e apertado. Fomos apertando, apertando, como se os braços pudessem se esticar infinitamente. Ao acordar, senti uma grande paz.
Escrito por Patrícia Diguê às 10h35
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Sessão privada
Sempre me gabei de ser daquelas mulheres que vão ao cinema sozinhas. Isso, pra falar a verdade, ocorreu só uma meia dúzia de vezes, normalmente quando quero muito assistir a um filme e, ao consultar a lista de possíveis companhias na agenda do celular, acabo preferindo abraçar a pipoca e a coca cola no escurinho. Ontem foi mais ou menos assim. Quero dizer, nem estava tão interessada assim no filme e nem tinha tanta opcão assim no meu celular. Mas precisava mostrar pra mim mesma que ainda tenho forças para enfrentar o frio e a solidão. Logo ao sair de casa, deu vontade de voltar correndo. Além da temperatura não-convidativa pra largar as cobertas, ainda chovia e ventava. Já que havia tido tanto trabalho colocando uma colecão de blusas, segui firme e forte meu caminho. Após uma viagenzinha curta em um ônibus double deck lotado, lembrei que precisava providenciar a minha companhia. Não apeteceu a pipoca, nem os sanduíches gelados do supermercado. Aí que para me manter fiel à minha dieta especial de muita gordura trans dos últimos meses, resolvi por um número quatro do Burger King, um cheese bacon com gosto de óleo saturado (mais batatas fritas e refrigerante, claro). Ansiosa pra mostrar como eu sou independente e bem resolvida, tratei de entrar logo na sala. Pensei: “Sem essa de esperar ficar escuro pra ninguém ver que estou sozinha, afinal, dificilmente eu encontraria alguém conhecido aqui mesmo e, se isso miraculosamente acontecesse, tenho a velha desculpa de que não sou daqui”. Respirei fundo e entrei na sala à meia-luz. Pra minha surpresa, não havia viv'alma no lugar. Olhei as horas e percebi que estava meia hora adiantada. Sentei confortavelmente na poltrona marcada (nos cinemas de Londres, você compra o ingresso com o número da poltrona) e até aproveitei pra botar os pés na cadeira da frente. Olhei para os lados e saquei meu sandubão. Como tinha escondido ele na bolsa, com refrigerante e tudo, já era esperado que tudo tivesse se derramado lá dentro. A tarefa de tirar todas as tralhas, secar com os guardanapos do Burger King e me preparar para comer tinham pelo menos feito o tempo passar mais rápido. Mas ainda faltavam 15 minutos e continuava como a única expectadora. Entre uma música e outra da estação de rádio, podia ouvir o farfalhar do saco de batatas e até minha mastigação. De repente, a música cessou e os comerciais (uns 10 pelo menos) começaram. Foi então que percebi que, literal e tragicamente, assistiria ao filme completamente sozinha, nem daria pra disfarçar que estava com a turma do lado. Um certo pânico me bateu. Pensei em descer e dizer para os funcionários: “Olha, deixa pra lá, não foi uma boa ideia eu vir ao cinema às seis e quinze da tarde em uma terça-feira com previsão de nevasca”. Desisti. E comecei a sentir peso na consciência. Toda aquela parafernália gastando energia e gerando quilos de gás carbônico só para o meu bel prazer. Sem falar que ainda tinha pago meia-entrada. Enquanto esses pensamentos iam me constrangendo, o filme começa. E então entra uma moça. O que me aliviou, mas em seguida aparece sua amiga e fiquei imaginando elas me achando uma louca com a bolsa aberta cheia de guardanapos e um monte de batata frita na boca. Comedinha romântica. Aquela atriz que fez “Diário de Bridget Jones” - que não estou com vontade de escrever o nome porque e' impronunciável e insoletrável - é uma executiva de Miami atrás de subir na carreira que acaba indo parar em uma cidadezinha do interior, conhece um grande amor, se apaixona e se casa. Até agora não sei porque entrei para assistir a esse filme e, pior, ainda consegui chorar. Chorei especialmente na hora em que ela ganha de presente de Natal da secretária (snif) um caderno de anotações com algumas fotos dela mesma coladas. Aí a secretária aponta pra uma delas e diz: “Nesta você parece que está carregando todos os problemas do mundo nas suas costas”. Snif! Na saída, um coroa puxa conversa enquanto eu esperava a chuva passar embaixo da marquise. “Acabou de ver um filme?”, perguntou obviamente. Achou que eu era da Bulgária. Contou que é sul-africano e que já tinha ido ao Brasil, passando por três estados. Brasília achou sem graça, São Paulo, muito grande, e Rio, “Yeah, Rio!”. A rápida conversa progrediu para a comparação entre as economias dos dois países (Brasil X África do Sul). E, comprovando que o marketing lulista de rei do petróleo está tendo resultado, ele, como muitas pessoas que tenho encontrado ultimamente, me diz: “Mas lá a economia está melhorando não é? Muito melhor que na África do Sul, está na hora de você voltar, não?”. Como demorei pra responder e fiquei olhando pra ele com cara de interrogação, ele ri, me deseja boa noite e entra no pub. Eu fico ali alguns segundos, prostrada, olhando para o nada. E de novo na companhia do frio, do vento, da chuva e da solidão, volto para casa, pelo menos agora sonhando com um lindo príncipe encantado que com certeza me espera calmamente em alguma cidadezinha do interior de algum lugar do mundo. PS: Graças à gentileza do meu amigo Rafael Motta, que me mandou os acentos por email, consegui escrever o texto sem atentar tanto contra nossa Língua Portuguesa. Fui copiando e colando letrinha por letrinha. Quando cheguei na palavra “ideia”, precisei consultar o novo guia ortográfico, que tirou o acento dela. Se esqueci de alguma outra destas modernidades, por favor me corrijam.
Escrito por Patrícia Diguê às 10h54
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O segredo de 20 milhoes
Slumdog Milionaire (“Quem quer ser um milionario?”). Fui ver. Sim, e' uma historia linda de amor e, sim, o ritmo e a fotografia nos remete ao Rio de Janeiro de “Cidade de Deus”. A parte tanto o conto de fadas quanto a polemica de quem influenciou quem, queria registrar aqui o que de verdade me fez ficar pensando depois. Porque, normalmente, nao saio do cinema opinando pelos cotovelos, me manifesto depois que as cenas assentam na mente, ou esqueco completamente se ele nao me comoveu. Enfim, resumindo rapidamente para quem nao foi assistir, e' a historia de um desgracado de um menino de Mumbai, o Jamal. O filme comeca do final, quando ele ja e um rapaz de uns 20 anos e esta na final de um programa de TV de perguntas e respostas que pode transforma-lo em um milionario. Cada pergunta no jogo remete Jamal a uma das inumeras tragedias por que passou, e assim o autor vai contando a historia dele desde a infancia. Toda a vez que acerta mais uma, ele tem a chance de parar, embolsar a grana e desistir de disputar o premio maior. Mas por que ele insiste em continuar no jogo? Nao foi o obvio motivo da ganancia. O objetivo dele em entrar no programa era muito maior do que os 20 milhoes de “rupees”. Ele so queria ser visto por seu grande amor de infancia. Fiquei pensando nas vezes em que a gente olha para o lado, diz “ja ta bom” e desiste de sonhos alimentados a vida toda. Colocamos um obstaculo aqui, nos escoramos numa desculpa ali... E, por medo de se jogar no que de verdade nos da sentido a vida, agarramos o roteiro que nos impoem e esquecemos de terminar de escrever o nosso. Sao tantos os desvios e tantas as tentacoes que nos levam a ilusoria sensacao de uma vida facil e tranquila que, ao final de um certo tempo, nos encontramos frustrados, vivendo historias alheias, nao nos reconhecendo mais quando nos olhamos no espelho. Nao tenho a receita de como as pessoas podem fazer para nao se perderem das suas metas originais. Se tivesse, ai sim seria uma milionaria. Mas pelo menos vale tentar refletir sobre viver a expectativa dos outros ou lutar por uma vida autentica. (Desculpem pelos acentos)
Escrito por Patrícia Diguê às 07h35
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Pessoas e leoes
Pessoas. Pessoas sao como leoes. Pessoas sao como leoes que voce tem que domar todos os dias. Como leoes que se, nao domados, te devoram.
Escrito por Patrícia Diguê às 12h54
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Frases de para-choque
“Quando meto o pe na porta e com forca! Humildade sempre” “Cervejaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa” “Entrando no clima” “Vivendo e aprendendo... 2009” “This is the dawning of the age of Aquarius” "Meu sangue é Gavião ô ô ô...Sou o herói guerreiro...Vou na velocidade...Conquistando o mundo inteiro” "Felicidade é ter algo o que fazer, ter algo que amar e algo que esperar" "Vai pra cima deles, Santos!” “Dizem que o que procuramos é um sentido para a vida, penso que o que procuramos sao experiencias que nos façam sentir que estamos vivo” “Não é quem eu sou por dentro e sim o que eu faço é que me define. Porque ser gentil é mais importante do que estar certo” “O amor só é lindo quando encontramos alguém que nos faça melhor do que podemos ser” "Não exija dos outros qualidades que voce ainda não possui” “Minha vida voltou a brilhar pelo simples fato de ser muito amada a cada dia intensamente” "Não exija dos outros qualidades que voce ainda não possui” “A felicidade depende das qualidades próprias do individuo e não do estado material do meio que se encontra” “Ê saudade que bate no meu coração” “Está tudo na mais perfeita confusão" “Até que um anjo me disse que ela existe e é tão fácil encontrar” “Como são sábios aqueles que se entregam às loucuras do amor" “Meus heróis morreram de overdose...alguém tem uma pílula alucinógena?” “心若知道灵犀的方向哪怕不能够朝夕相伴" “You can dance, you can jive, having the time of your life!” “Calma amiga, todo mundo chora sozinho no seu cantinho, quietinho, quentinho até o sono levar embora a dor. Amanhã é domingo amore” “Tudo na vida, com amor e paixão!” “La vai eu de novo” “I wanna kisses and dresses “Ontem, hoje e sempre” “All things have their time. All things have their answers. All things have their right to be. Accepting this, harmony comes!” “Vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena” “Eu desisto! Não existe essa manhã que eu perseguia um lugar que me dê trégua ou me sorria. Uma gente que não viva só para si” “Eu quero, eu posso” “Sou mãe coruja mesmo!” "Let's put a smile on that face" “Eles estão entre nozes” “ Nem quero pensar se é certo querer, um beijo seu” “Carpe Diem” “FHCpósTHC:esqueçam o que escrevi” “Ritornato a casa mia. Ma forse tra poco vado via” “Todo sopro que apaga uma chama reacende o que for pra ficar" “Não aprenda a fazer, aprenda fazendo, em vez de cair apenas em solo conhecido e macio, prepare-se para as quedas no chão duro do mundo” “Ao sabor dos ventos e das marés” “Envelhecendo anos em meses” “Vivo o presente, Não temo o futuro e foda-se o passado” “Deus, dai-me continência e castidade, mas não agora” “Eu só pedi pra ser feliz, mas Deus exagerou. Condenado à felicidade” Messenger, 15/02/2009 (Desculpem a desconfiguracao dos acentos)
Escrito por Patrícia Diguê às 12h35
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Nao sei duendes, mas anjos existem
Hoje de manha, um deles veio ate mim. Quer dizer, eu fui ate ele, digo, ela (anjo, quando na Terra, tem sexo). Estava perdida, como ja e' de praxe quando preciso procurar algum endereco nesta cidade onde tudo parece muito igual por mais que voce se desloque quilometros (milhas, diriam aqui) – esses britanicos adoram padroes, regras, criterios e fila, claro, mas isso e' historia para outro post. Chovia tanto... Desci do onibus com meu guarda-chuva da beirada torta, comecei a perguntar pelo endereco e, como sempre, entrei na rua errada, andei muitas quadras ate me convencer de que algo estava errado. Minhas botas de 10 libras (1 libra = 3,34 reais, cotacao de hoje) ja empantanadas. Perguntei pela rua para umas tres unicas almas que via por ali, mas ninguem sabia onde era a bendita Kingsbridge Road. Resolvi voltar ao ponto de partida e comecar do zero, antes que me atrapalhasse ainda mais. Foi quando resolvi abordar uma senhora que se apressava a entrar no carro. Ela abaixou o vidro, pensou, pensou e deu as direcoes. Mas a minha "anja" preferiu ir “one extra mile”, como dizem aqui quando alguem faz algo alem da obrigacao, alem do obvio e esperado. Comecou a perguntar o que era o endereco, o que eu ia fazer la e que horario era meu compromisso. Vendo que o tempo era apertado, olhou bem no fundo dos meus olhos, como que para se convencer de que eu nao era um individuo perigoso, e disse que me levaria la. Tentei dizer que nao precisava. Como alguem pode querer me fazer uma bondade sabendo que nao posso dar nada em troca? Entrei no carro, tomando cuidado para nao molhar tudo e disse todas as formas de obrigada que conheco em ingles. Ao encontrar a rua, disse para ela que estava otimo ali mesmo e que me viraria para achar o numero, mas ela fez questao de me deixar exatamente na porta. Na hora de me despedir, alem das versoes de “thanks”, tambem disse “Deus te abencoe, eu nao teria conseguido sem voce”, desejando que ela entendesse portugues, ai talvez conseguisse exprimir direito minha profunda gratidao. Ao voltar para casa e ate agora, minha “anja” (esqueci de perguntar seu nome) nao sai da minha cabeca. Fiquei pensando como nossas atitudes tem muito mais importancia e valor quando nao ficamos com a mesquinha mania de esperar algo em troca. O ato de bondade dela me fez, pelo menos por hoje, voltar a ter esperancas no ser humano. Principalmente em uma cidade onde a multiculturalidade, em vez de aproximar, faz com que as pessoas facam o possivel para nao sairam do isolamento virtual que constroem em torno daquele metro quadrado ocupado por seus corpos e pela extensao de seus membros no espaco. PS: desculpem a falta de acentos
Escrito por Patrícia Diguê às 15h28
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Agradecimento a uma inimiga
Ja se vao uns cinco anos de convivencia. Vinha resistindo escrever sobre voce. Puro medo. Preferia te ignorar na ilusao de que assim voce desaparecesse da minha vida. No comeco achava que me livraria rapido de voce. Era apenas mais uma pedra facil de chutar. Mas voce foi ficando, me irritando, me desesperando, insistindo em me acompanhar por onde quer que eu fugisse. Tentei te enganar, tentei fugir, tentei te cansar e entender o porque de tanta perseguicao. A convivencia nao tem sido facil. Posso dizer que e' a mais complicada que ja tive. Eu te odeio com todas as minhas forcas, mas voce nao me deixa em paz. Sempre acho que ja fiz de tudo para que voce me deixe, mas ai voce insiste em aparecer e me obriga a encontrar uma nova alternativa para que possamos continuar convivendo com um minimo de sanidade. As vezes me conformo com sua presenca, as vezes choro de raiva. Mas, fazendo um balanco desses anos todos, tenho que reconhecer que preciso te agradecer e talvez reconheca ainda mais seu valor daqui a um tempo. Com certeza tomarei consciencia da sua importancia quando voce nao estiver mais por perto. Nao acho que sentirei saudades, ja seria demais, mas te entenderei melhor quando nossa relacao doentia acabar e eu puder olhar tudo com distanciamento. E' verdade que talvez voce nunca me deixe, eu sei, preciso considerar esta possibilidade. Mas ainda assim tenho que te agradecer por me ensinar tanta coisa sobre mim mesma. Obrigada por me mostrar que nao sou a senhora da minha vida; que nao sou um robo com botoes de controle; que igual a todo mundo sou fraca; que nao posso querer ser tudo; que nao posso ignorar meus sofrimentos, porque eles se manifestarao de formas muito mais destruidoras no futuro. Obrigada por me ensinar a compreender quem sofre; que algumas pessoas sao mais frageis que as outras e que as vezes so precisam ser ouvidas; por mostrar ainda que a maioria das pessoas quer se esconder em uma mascara de infinita felicidade, mas que no fundo enfrentam terriveis fantasmas tambem. Obrigada ainda por me mostrar que a vida nao e uma ciencia exata, que remedio nao cura doenca da alma e que buscar a paz leva tempo. Agradeco ainda a me obrigar a ter paciencia; a ver que transformacoes levam o tempo que elas necessitam e nao o que a nossa razao impoe; e tambem que cada um tem um tempo diferente. Enfim, a lista de contribuicoes seria infinita. Voce me fez reavaliar tudo que sou desde que nasci, tudo que fiz de bom e mau, o que vinha fazendo comigo ate aqui, me obrigando a repensar rotas, a jogar mascaras fora, a nao ter vergonha de chorar e a buscar uma verdade. Estou longe de chegar nela, mas certamente seria um ser humano menos sensivel e vazio se voce nao tivesse aparecido em meu caminho, derrubando todas as minhas certezas e minhas defesas, me obrigando a me render as forcas que regem o mundo em vez de tentar muda-lo. Obrigada, insonia, por me mostrar que nao sou nada, apenas mais um ser humano atras de caminhos para aliviar a dor de existir. (PS: desculpem a falta dos acentos)
Escrito por Patrícia Diguê às 14h49
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Quem dera te ver ao acordar
Hoje, ao abrir os olhos, desejei te encontrar depois da porta, com seu pratinho de comida assistindo a desenho animado. Por um instante, fechei os olhos e tinha certeza que ao sair do quarto toparia com seu sorriso aberto e olhos brilhantes de sinceridade infantil. Te daria um beijo estalado na bochecha, te chamaria de “gostosa linda”, e, antes que pudesse escovar os dentes, voce ja comecaria a despejar o relatorio de tudo o que tinha acontecido naquela manha. Outra vez fechei os olhos e desejei que, talvez, a porta estivesse aberta. E voce, sem entender porque alguem dorme quando ja esta claro, viria pulando na minha cama dizendo que ja era dia. Ai eu pediria cinco minutinhos. E voce contaria ate cinco dizendo “Pronto, acorda”. Abri os olhos e finalmente me convenci da impossibilidade de isso tudo acontecer. Puxei a cortina e vi arvores secas, janelas fechadas, pessoas encolhidas. Desejei cair em um sono profundo e so acordar quando pudesse sentir seu cheiro e beijar sua bochecha rosa. Ai me arrependi (pausa pras lagrimas)... Ai me arrependi de ter ficado so 10 minutos com voce na piscininha em vez de 20, de preferir assistir a TV ao brincar de cabana, de te deixar a noite, em vez de deitar do seu lado. Me arrependi de toda a minha impaciencia de adulto e senti raiva de nao saber mais brincar. Depois do arrependimento veio o medo. Medo de perder momentos tao importantes para sua vida. Medo de nao estar quando voce aprender a escrever uma frase inteira, de nao estar do seu lado quando ganhar ovos de Pascoa, presente de aniversario ou descobrir que o papai noel nao existe. So espero ser perdoada, porque tudo que fazemos na vida, seja certo ou errado, no fundo e' para um dia poder recompensar as pessoas que nos amam de verdade, aquelas que nunca esperam nada em troca, exceto um sorriso pela manha.
PS: Desculpem a falta dos acentos
Escrito por Patrícia Diguê às 13h09
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Quando a paixao tem data de validade
O cenario era uma praia paradisiaca no nordeste do Brasil. Enquanto a maioria dos seis ou oito passageiros da van se olhavam com timidez, ele desembestou a perguntar de tudo pra todo mundo e em instantes ja davam risada como velhos amigos. Gracas a isso, o percurso de mais de uma hora entre o aeroporto e o hotel ficou curto, passou despercebido. Na chegada, recepcionistas com coco gelado, sorrisos de boas-vindas e aquele sol brilhando... so faltaram dancarinas fazendo o ula-ula. Dava para esquecer facil que se tratava de um congresso profissional e se imaginar em um daqueles filmes que o magnata americano decide passar um fim de semana logo ali, em uma praia exotica da America do Sul. Nesse clima de ilha da fantasia, percebeu que aquele moco brilhava mais que as jacuzzis que pareciam sair da areia ou o mar que se juntava em um tom so' com o ceu. O sorriso aberto se abria para todos, mas o olhar de tom verde ja havia escolhido uma direcao. Trocaram algumas palavras, riram e se viraram as costas, em direcao aos quartos de lados opostos. Na primeira tarde de palestras, resolveu nem aparecer. Foi esfriar a cabeca no mar. A alianca na mao direita lhe lembrando toda hora do que era certo. As fantasias lhe atormentando a cabeca naquele cenario perfeito, queimando os miolos mais que o sol de 40 graus. A noite, jantaram juntos, falaram sobre sites de relacionamento, eleicoes, desemprego, e tentaram ainda descobrir o que faziam ali naquele resort de bacanas, sendo patrocinados por uma industria situada a horas de voo de onde trabalhavam. Acabaram decidindo que tudo se tratava de uma conspiracao patrocinada por uma grande corporacao internacional. Sairam sem rumo pela pequena vila, beberam e riram mais. Mas ao terminar da noite, viraram as costas, em direcoes opostas. Ambos deitados em suas camas kingsize, de lencois brancos e macios, tentaram se convencer do que era moral e certo. E assim adormeceram, fortes em suas conviccoes. Ao fim do dia seguinte, trocas de telefones e emails de praxe e se disseram adeus. Nunca mais ouviram um do outro. Agora o cenario era um jantar importante no interior de Sao Paulo. Sabiam ja que se encontrariam. Um ano havia se passado. Mas o que para ela parecia uma segunda chance do destino, se transformou em agua gelada goela abaixo. Desta vez, a alianca havia pulado para a outra mao. Engoliu, olhou discretamente para suas maos e lhe cumprimentou polidamente. Mas a sensacao semeada naquele congresso chato de industriais entediantes aflorou com efeito reboque e naquela noite nao enxergavam muita coisa alem de um ao outro. Para piorar, ainda naquela noite saberiam que viajariam juntos para o outro lado do mundo em breve. Nos primeiros dias, longe de qualquer olhar de reprovacao, deram vazao a todo impeto controlado. Confessaram sentimentos naquele ano que passou. Ela, um arrependimento por ter deixado uma possivel grande paixao passar. Ele, a angustia por ter vestido a fantasia do personagem de um roteiro pre'-programado. Mas o conto tinha data de validade. Duas semanas. Ja nas ultimas noites, ela foi direto para o seu proprio quarto. No mundo real, nao cabia aquele amor. E, na volta, no aeroporto, mais uma vez se deram as costas, e foram para suas cidades em direcoes opostas. Ele vive o sonho de um dia poder deixar o palco e aposentar sua mascara. Ela segue incessante pelo mundo na busca de um nova grande historia de amor. (PS: desculpem a falta de acentos, porque meu teclado nao esta configurado para o Portugues)
Escrito por Patrícia Diguê às 11h38
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Eu odeio a minha mae
Fico olhando a foto dela, bem dentro dos olhos, tentando imaginar o que deve ter passado na sua cabeca naquela noite de 16 de outubro de 1992. No retrato, ela parece perfeitamente normal e ate feliz. “Eu odeio a minha mae”. A frase de seu filho martela na minha cabeca enquanto escrutino a foto. “O misterio da mae desaparecida” foi como ficou conhecido o caso nos jornais da Inglaterra. M. Perez saiu de casa naquela sexta-feira para nunca mais voltar, nem viva nem morta. Tinha 48 anos, estava divorciada e tinha dois filhos, A., de 17, e R., de 12. Psiquiatra renomada, especializada em epilepsia, deixou apenas um bilhete aos filhos dizendo, em linhas gerais, que havia falhado como mae e mulher e que nao conseguia corresponder as expectativas da familia. Seu carro foi encontrado dias depois a mais de 300 quilometros. A policia nao entendia por que alguem com a intencao de se suicidar teria dirigido para tao longe e, alem disso, como teria sido tao bem sucedida no ocultamento do proprio corpo. Por isso, acreditaram durante meses que ela estava viva. Mas, diante da falta de qualquer pista, M. foi considerada morta. Uma morta sem velorio nem enterro, cujo fantasma atormenta a vida de A. E R. ate hoje. Para todo mundo, eles dizem que os pais morreram quando eram pequenos. O pai, divorciado da mae ja havia 12 anos, morava no Chile, e morreu poucos anos depois. A epoca, ele estava doente e impossibilitado de viajar para a Inglaterra para ficar com os filhos. A avo e’ que veio. Durante muito tempo, os meninos ficaram assim, de mao em mao, de casa em casa. R. teve serios problemas com drogas na adolescencia e hoje sofre de esquizofrenia – carrega caixas de remedios por onde vai -, nao consegue tocar projetos a longo prazo, nem assumir compromissos. E’ como se ele tivesse parado nos 12 anos, sem encarar responsabilidades, sempre dependendo dos cuidados do irmao mais velho, que sem querer acabou se tornando pai e mae dele depois da tragedia. Nao e preciso muito tempo de conversa para que logo revelem o que de verdade ocorreu com a mae, mas nao mantem o assunto por muito tempo. A. e’ alcoolatra, sem falar na dependencia do cigarro e uso de outras drogas. Tem emprego, amigos, a casa que a familia deixou, mas e’ mentalmente fraco e doente. “Bebo pra esquecer a realidade, ai eu durmo”, tenta explicar. Coleciona historias tragicomicas sobre as incontaveis vezes que acordou em lugares sem saber onde estava. O discurso de que vai abandonar o alcool ja nao encontra qualquer credibilidade entre as pessoas que estao ao redor. Alem da fuga na cerveja e na vodka, vive constantemente fazendo planos de mudar completamente de vida. Mas, na realidade, parece nao ter forcas para tomar qualquer iniciativa. Vive querendo fugir, dizem. “Vou comprar um terreno na Espanha e um pastor alemao”, conta. “Resolvi ir para o Japao, aprender a ser chef especializado em sushi”, sonha. Nas horas vagas, bebe. E, muitas vezes, tem crises de choro. E, sempre que bebe, diz que vai abandonar o emprego, o que ja chegou a fazer, mas conseguiu reverter a situacao apos voltar a sobriedade. Sao pessoas doces, apesar disso, carentes e amorosas, sempre com um sorriso aberto e um bom humor contagiante. Mas quem os conhece sabe que a alegria esconde almas tristes e perdidas. A impressao e de que, inconscientemente, desejem morrer cedo. Na casa deles, algumas poucas fotografias em meio a latas vazias de cerveja mostram criancas felizes, inconscientes do que estava por vir.
Hoje encontrei A. Parecia feliz e saudavel. Engordou. Voltava de um mercado com uma sacola cheia de comida. Um bom sinal, ja que, quando embala nas noitadas, nao se alimenta. Disse que nao bebia havia sete dias e que, desta vez, estava decidido a abandonar o vicio de verdade.
Escrito por Patrícia Diguê às 23h08
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Meu primo foi baleado
Ele amava pipas. Eu devia ter uns 15 anos - ele uns cinco ou seis - e achava seu vicio pelas pipas muito divertido. Aquele toquinho de gente, cabelo raspadinho, com seus labios carnudos, pra la e pra ca com as benditas. Sabia tudo do assunto. Especialista em cerol, saia pela rua “cortando” todo mundo. Com umas varetinhas, cola e papel de seda, fabricava verdadeiras obras de arte. Acostumado com as ruas perigosas da Capital, se sentia no paraiso na praia. Saia com apenas uma e, de repente, chegava cheio delas debaixo do braco, umas bem estragadas pela “luta” no ceu. Mas o que valia eram as historias de aventura. Assim que se corta uma pipa, e preciso correr pra recolher o premio. Muitas vezes saem brigas, ja que as regras do “esporte” nao estao escritas em lugar algum e nem existem juizes. Contava as conquistas com seus olhos brilhantes e um sorrisao contagiante. Eu nao entendia muito bem tamanha emocao em se colocar um pedaco de papel no ar e ficar observando. Puro recalque, provavelmente, porque nao tinha o talento de faze-las voar. Tal arte exige paciencia e calma, caracteristicas que definitivamente nao me sao inatas, infelizmente.
E’ assim que lembro do Julinho. “Julio Cesar” quando a mae dele nao aguentava mais chama-lo para descer a pipa e entrar para casa. A mae dele e’ a Rosemeire, minha prima de primeiro grau, filha da minha tia “Nega” (ate hoje nao tenho certeza do nome dela), que era branca e toda cheia de sardas, na verdade. A tia “Nega” era a irma mais velha do meu pai. “Era” porque morreu recentemente. A Rose herdou a forca para enfrentar a vida da mae. So pode ter sido da mae, porque o pai sempre foi ausente, fraco (a imagem que tenho dele e de uma pessoa que nao conversava e que so bebia e fumava, permanecendo como que em uma dimensao diferente da que eu me encontrava) . Ze era o nome dele. Tambem morreu, antes da “Nega”. Minha tia era impressionante. Animada com a vida, mesmo trabalhando como uma escrava e com um casamento de mentira (ela nao era mais casada na pratica, mas continuou cuidando do pai dos filhos dela ate ele morrer). Lembro que ela vendia roupas em feiras livres em Sao Paulo. Era marreteira, definia. Quando nos visitava, trazia aquelas sacolonas, para nao perder a oportunidade de, de repente, faturar entre a vizinhanca. Sempre me presenteava com alguma coisinha. Comprava os artigos na 25 de Marco, Bras etc. La ia ela de onibus, bem cedo, que era para pegar um bom lugar no final da feira, onde gritava para conquistar as freguesas. As vezes tinha que correr dos fiscais, porque nao tinha ponto. Sua alegria e orgulho com o trabalho sao ate hoje invejaveis para mim. Depois, ela virou dona de cantina de escola, a qual tocava com ainda mais alegria. Vendia muita coxinha, pipoca e pirulito, contava. Quando vinha em casa, nao parava de trabalhar, limpava tudo e fazia coisas gostosas pra gente comer.
A Rose seguiu o mesmo caminho de batalhadora. Praticamente criou o filho sozinha, sem pai (nunca soube quem ele era). A vida dela era praquele Julinho. “Julio Cesar eu vou te bater, Julio Cesar”, lembro dela gritando. Sorrisao ela tem, o tempo todo e com tudo. Um sorriso ao mesmo tempo inocente, quase timido, e tambem sofrido, daqueles que beiram ao desabafo.
Mas no ultimo domingo, a Rose deve ter chorado tanto. Incomensuravel dor ela deve estar sentindo. Quando recebi a noticia, a primeira imagem que me veio a cabeca foi do Julinho falando com cara de choro e cortando os “Rs”: “O tio (meu pai), compra uma pipa pa mim?”. Era impossivel resistir ao pedido que mais parecia um suplicio desesperado.
Era domingo de manha, 14 de setembro, e, pelo que me explicaram, o Julinho decidiu sair de Atibaia, onde passava o final de semana, para abrir a loja do tio. Por causa da chuva, resolveu deixar o descanso e ir trabalhar. Estava sozinho. Aproveitando a falta do seguranca nos finais de semana, um assaltante escolheu a loja. Nao se sabe exatamente como aconteceu, mas o Julinho recebeu um tiro na nuca. Morreu na hora.
Soube da tragedia na terca-feira a noite. “Lembra do Julinho, aquele nosso ‘priminho’ que gostava de pipa?”, comecou meu irmao. “Mais um numero”, terminou ele. Depois de desligar o telefone, permaneci sentada um bom tempo na poltrona. Fiquei pensando em Sao Paulo, fiquei pensando no Brasil. Um suspiro longo e profundo denunciam minha profunda tristeza, misturada com desapontamento, toda vez que lembro. Um pouco de culpa tambem, agora que estou tao longe, como se tivesse abandonado uma pessoa amada por achar que ela nao tem mais conserto. Sera que era hora dele morrer, como diz o ditado? Quando olhava suas pipas dancando nas alturas, com certeza nao imaginava que tao jovem iria tambem voar para ceu. Melhor esquecer que o Julinho foi mais uma vitima da guerrilha urbana brasileira e, em vez disso, imaginar que ele simplesmente nao estava gostando de ser adulto e resolveu voar atras das suas pipas, para bem longe. Espero que ele esteja em um mundo mais colorido, onde a arma mais perigosa e uma linha com cerol e os mais fracos tambem sobrevivem apos as batalhas, precisando apenas se municiar com mais seda, cola e varetas.
PS: desculpem a falta dos acentos mais uma vez
Escrito por Patrícia Diguê às 20h27
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Nao as sacolas plasticas
Comentario a ser publicado em A Tribuna de Santos dia 21/09
Um brasileiro desavisado em Londres vai achar que os caixas dos supermercados e lojas sao mal-treinados ou mal-educados. Quem e que nao faz cara feia quando o funcionario demora a colocar as sacolinhas de plastico na esteira para que possamos colocar nossas compras? Muita gente mete ate umas sacolas a mais dentro de outras, para poder utiliza-las para outros fins domesticos. Por aqui, o movimento e contrario. Os caixas ficam esperando voce pedir uma sacola plastica, ja que uma grande quantidade de pessoas ja esta se acostumando a levar as suas proprias bolsas de casa, sejam aquelas sacolinhas de algodao com mensagens ecologicas (o antigo bornal das nossas avos) ou um mochilao mesmo. Isso nos locais onde elas ainda sao gratuitas, porque, em muitas redes, pricipalmente as menores, a sacola plastica e cobrada, cerca de R$ 1,50 a R$ 2,50. O peso no bolso e a multidao de donas-de-casa ambientalmente corretas acabam resultando em uma pressao sobre aqueles que ainda nao entenderam que as sacolinhas sao uma verdadeira praga para o meio ambiente. Elas se espalham facilmente por rios e mares, matando seres vivos que as confundem com algas, prejudicando, dessa forma, toda a cadeia alimentar da qual nos, seres humanos, dependemos. Chegou ao ponto de muitos consumidores se sentirem constrangidos quando realmente precisam das sacolinhas plasticas, no caso de uma passada nao-planejada pelo supermercado. E facil ver pessoas “amassando” o tomate e o mamao para tentar colocar tudo na menor quantidade possivel de sacolinhas. Circular carregando um montao de sacolinhas plasticas entao e um verdadeiro vexame. Toda pessoa civilizada precisa ter sua green bag em casa, de preferencia com frases do tipo “Eu nao sou de plastico, eu era um pneu de carro” ou entao “Esta sacola e minha”.
O movimento contra as plastic bags, consideradas os maiores icones da destruidora sociedade de consumo, vem dando resultado. O setor varejista na Gra-Bretanha calcula que a producao de sacolinhas caiu 14% no ano passado (13,4 bilhoes para 12,4 bilhoes). Vinte e uma empresas lideres do mercado se comprometeram com o governo a reduzir a distribuicao em 25% ate o final deste ano e divulgam projetos visando a confecao de versoes biodegradaveis. Alem da cobranca pela sacola plastica, as iniciativas para forcar o corte tambem incluem, por exemplo, a venda a precos simbolicos de sacolas de algodao (muitas vezes com estampas assinadas por designers famosos) e sua troca gratuita quando elas ja estao gastas; alem da implantacao de programa de acumulo de pontos a cada sacolinha plastica devolvida, que depois podem ser revertidos em produtos. O governo ameaca cobrar um imposto sobre as sacolas caso as redes nao criem politicas para cortar o uso voluntariamente.
A noticia de que os supermercados no Brasil comecam a se preocupar em estimular a populacao a reduzir a utilizacao de sacolinhas vem ao encontro de um movimento mundial que ja dura quase uma decada. Na Irlanda do Norte, por exemplo, nao existe distribuicao gratuita de sacolinhas desde 2002. Mas qualquer politica so sera bem-sucedida se todos fizerem a licao de casa, o que implica em tomar consciencia do principio numero um para um mundo sustentavel: reduzir o consumo. E preciso comprar menos. Se precisar mesmo consumir, entao reaproveite. Senao conseguir reaproveitar, entao recicle. E facil lembrar dos tres “Rs”: Reduzir, Reaproveitar, Reciclar. Para muitos, pode soar dificil coloca-los em pratica. Acontece que isso ja deixou de ser uma questao de escolha.
Escrito por Patrícia Diguê às 20h12
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Que papo mais sei la
E muito engracado o que acontece quando fico muito tempo sem escrever no blog. Devido a demora, acabo me obrigando a contar algo verdadeiramente interessante para justificar o congelamento. Mas ai nao escrevo nada, na ansia de achar algo digno de registro. E’ o mesmo que acontece quando a gente fica muito tempo sem falar com alguem proximo. Se voce costuma ver uma pessoa todo dia, curiosamente tem um milhao de coisas para tagarelar. A conversa chega ate na quantidade de vezes que se foi ao banheiro ou mesmo na consistencia do produto da acao. Ja quando se topa com um amigo que nao se ve ha anos, contraditoriamente, a conversa nao sai do “tudo bem”: “Oi, tudo bem? Quanto tempo! E ae?” Tudo bem, quanto tempo mesmo, eae?”. Fim. Sempre achei isso muito estranho. Mas agora entendo: o problema e’ que nestas horas queremos lembrar de algo que realmente achamos relevante. Como geralmente so achamos a vida dos outros interessante, nao ocorre muita coisa para contar nestas ocasioes e o dialogo termina assim: “Vamos combinar de se encontrar para contar as fofocas”.
Voltando ao blog: fico esperando algo impactante.
Mas que chatice tudo isso, parece filosofia de boteco depois da meia noite. Realmente e’depois da meia noite, mas ja voltei do boteco (que aqui chama pub). Estou aqui sozinha no meu quarto. E uma especie de sotao, sem pulgas nem percevejos. Alias, vejo pouco inseto por aqui, so aranhas, umas grandes, apavorizantes. Dizem que tem uns bichos de colchao que atacam a gente de noite, ainda nao senti. Enfim, no minusculo espaco, so cabe uma cama exatamente do meu tamanho, o computador fica no colo, as roupas socadas aqui e ali e os sapatos em uma caixa de papelao. Por isso, tenho exercitado bastante minha capacidade de organizacao e de juntar a menor quantidade de tranqueiras possivel, porque ou sao elas, ou sou eu aqui dentro.
Novamente voltando ao blog: por falta de uma grande historia, vou aproveitar a visita para comentar uma passagem do livro que estou lendo. E a coisa mais interessante que me ocorre no momento para que voces nao fechem a tela pensando no tempo que perderam. Rapidinho. Para acabar. “To get back one’s youth, one has merely to repeat one’s follies” (Para voltar a juventude, e preciso repetir as tolices que se fez). E “Most people discover when it’s too late that the only things one never regrets are one’s mistakes” (A maioria das pessoas descobre quando ja e tarde demais que as unicas coisas que a gente nunca se arrepende sao os nossos erros). Quem falou foi um personagem de Oscar Wilde, em “O retrato de Dorian Gray”. Disse que iria comentar, nao e? Pensando melhor, as frases nao precisam da minha pobre analise. Quando chegar ao fim dele (depois de infinitas consultas ao dicionario), quem sabe boto um comentario.
PS: Tentei de tudo, apertei todos os botoes... mas nada de conseguir que este computador escrevesse em portugues. Santa ignorancia informatica. Portanto, perdoem novamente o assassinato a (com crase) nossa querida lingua (com acento).
Escrito por Patrícia Diguê às 21h20
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O desafio de Londres
Pessoal, confiram minha primeira materia como "correspondente" na Istoe desta semana (http://www.terra.com.br/istoe): "O desafio de Londres"
Escrito por Patrícia Diguê às 22h03
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Too late
- Voce e linda. Voce e... linda!
- Poxa, foi preciso a gente se separar pra voce me falar isso?
- Eu nunca te falei? Claro que falei.
SILENCIO
Escrito por Patrícia Diguê às 21h55
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Makes sense
Alem dos objetivos obveis de ter tomado a decisao de sair do pais, deixando emprego, familia, amigos etc, como estudar ingles, conhecer pessoas e lugares novos, existe um outro no campo mais existencial. Queria tambem fazer um balanco dos 33 anos da minha vida. Ter tempo para pensar em tudo, longe de tudo. Colocar em cheque dilemas como profissao, relacionamentos e meu papel no mundo e em relacao aos meus semelhantes. Ainda nao cheguei a muitas conclusoes, porque em um primeiro momento voce tem que se preocupar em sobreviver e se achar em um mundo estranho. Pouco antes de viajar, e ate hoje, tenho que responder perguntas relacionadas aos meus objetivos, com as quais ainda me atrapalho. Por que voce veio para Londres? Quanto tempo quer ficar? Por que voce nao esta trabalhando como jornalista aqui? O que quer fazer quando voltar para o Brasil? Por que voce escolheu Londres? Meio cansada de tanto responder estes questionamentos e tentando explicar para mim mesma o que estou vivendo, cheguei ontem a uma simples e ao mesmo tempo profunda explicacao. "Because it makes sense". Foi como a maca caindo na cabeca de Isaac Newton - sempre me refiro a esta lenda quando consigo finalmente terminar o processo de uma ideia. Assim como ele, eu descobri a "minha" lei da gravidade. O primeiro principio e: a vida precisa fazer sentido. Quando isso deixa de acontecer, e hora de mudar. Portanto, no momento, nao sei absolutamente nada sobre ontem, hoje nem amanha, apenas tudo esta fazendo sentido. Simples assim. Quando novamente deitar a cabeca no travesseiro e pensar "O que diabos estou fazendo aqui?", e que chegou a hora de um novo momento. Tudo isso para que, no fim, nao tenha que olhar para tras e dizer: "Minha vida nao tem nada a ver comigo". Pelo menos ja sei o que nao quero, o que ja e um primeiro passo.
Desculpem pela falta dos acentos e tambem pela ausencia. See you.
Escrito por Patrícia Diguê às 18h49
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Vou aparecer na telinha
Saindo de casa ontem, dei de cara com uma equipe da Record fazendo aqueles anuncios de lojas em uma especie de mercearia na esquina. Precisava carregar o meu cartao de transporte e passei por eles, quando acabei sendo "obrigada" a dar uma entrevistinha. Tive que falar que gostava de comprar frutas no "Seven Brothers", pertencente a uma familia de arabes. O negocio quase nunca fecha e eles se revezam no balcao. Acostumados com a clientela brasileira do bairro, sempre tem a disposicao produtos tipicos, como farinha de mandioca, sonho de valsa, cha mate, bolacha Bono, esmalte Risque, po Royal etc. Enfim, devo aparecer no anuncio por ai. O pior e que nem tenho televisao onde estou, enfim, no minimo, mais uma historia engracada para contar aqui e no balcao. Papo vai, papo vem, me chamaram para participar de um programa a la Serginho Groisman. Acho que minha funcao sera fazer perguntas para os convidados, seja la quem forem. Sabado estou la, macaqueando no auditorio. No minimo, outra historia bizarra para este diario virtual.
Escrito por Patrícia Diguê às 15h21
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Tentando ser mais green
Desde que cheguei por aqui, tenho reparado na febre das green bags. Sao aquelas sacolas que tambem existem no Brasil para levar ao supermercado no lugar de usar as sacolinhas plasticas. Mas por ai sentia que era mais um fenomeno fashionista do que realmente de conscientizacao ambiental. Aqui senti uma mobilizacao maior, uma pressao mais contundente contra as sacolinhas. Claro que tambem existe o lado fashion. Vejo todos os dias as mulheres com suas sacolas de algodao ou outros tecidos naturais com mensagens do tipo "esta sacola e minha" circulando por ai. Mas gostei de ver que existe, principalmente, um esforco grande das redes de supermercado. Vou citar alguns exemplos. Em uma delas, chamada Netto (a brasilerada toda compra la, porque e mais em conta), nao existem sacolinhas. Se voce nao levou a sua de casa, precisa comprar (sao dois tamanhos e custam aproximadamente entre um e dois reais). Isso me obrigou a chegar em casa e guardar as benditas para nao ter que gastar de novo da proxima vez. Num dia que planejava passar no Netto ao voltar para casa a noite, lembrei de carrega-las dentro da minha bolsa. Em outra rede, Tesco, uma das maiores, existe uma especie de programa de pontos se voce reusa as sacolinhas, que podem ser revertidos em produtos. Uma vez que fui la, levei minha mochila para carregar minhas compras. Em algumas lojas, os caixas perguntam se voce quer uma "bag", nao vao colocando a mercadoria automaticamente em uma sacolinha, ai voce e obrigado a usar a sua bolsa mesmo. Eu estou tentando mudar aos poucos meu vicio pelas sacolas. Alem disso, de tanto ouvir campanha contra elas, da ate vergonha de andar por ai carregando um montao, me sinto meio criminosa, enquanto as "donas-de-casa verdes" desfilam orgulhosas com suas proprias fashion bags. Acho que, no Brasil, a mudanca deveria comecar tambem pelas redes. Cobrar pelas sacolas talvez encontrasse resistencia no inicio, mas fica aberto o debate e a sugestao.
Escrito por Patrícia Diguê às 15h12
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Alcool causa delays
Agora entendi porque ontem a noite havia tanta gente bebendo nas estacoes de metro e por que os trens estavam tao atrasados a noite. Quando voltava para casa, por volta da meia-noite, apressada para pegar o ultimo trem, acabei tendo de voltar de onibus, porque o ultimo foi cancelado. Cheguei a ver uns malucos cambaleando na estacao Great Portland Street. Pensei que se tratava de algum jogo de futebol, tamanha a empolgacao da galera. Mas tudo se deveu ao ultimo dia de permissao para se beber na rede de transporte da capital. O prefeito, recem-eleito, baniu o alcool a partir de hoje em metros e onibus. Achei uma boa atitude, os veiculos e trens ficam repletos de garrafas pelo chao nos finais de semana. A galera compra cerveja em supermercados e pega o transporte ja fazendo o "esquenta". So tenho duvidas se a medida vai funcionar tambem para reduzir o consumo. Alem desta providencia, comecaram campanhas nas televisoes e em outdoors alertando sobre o perigo de se beber tanto, trazendo a quantidade aceitavel por dia para homens e mulheres. O tabagismo tambem vem sendo combatido com rigor. Alem da proibicao no ano passado de fumar em locais fechados, sejam pubs, bares ou danceterias (para fumar, e preciso sair do ambiente, geralmente enfrentando frio e chuva), agora querem acabar com as caixas de 10 cigarros, mais baratas e mais acessiveis aos mais jovens. E tambem planejam banir as maquinas de cigarros, que podem ser vistas em todos os lugares.
Veja a noticia de hoje no site da BBC:
Uma das mais importantes estações de metrô de Londres, Liverpool Street, foi fechada neste sábado, depois que cerca de duas mil pessoas tomaram o local para beber no último dia antes da proibição do consumo de álcool na maior parte da rede de transporte da capital britânica. A proibição foi anunciada pelo novo prefeito de Londres, Boris Johnson, pouco depois de ele ter assumido o cargo, neste mês. Milhares de pessoas aproveitaram o último dia de legalização e foram às estações e trens degustar bebidas alcoólicas - e muitos acabaram se encontrando na estação Liverpool Street, que teve que ser fechada por estar superlotada. Em toda Londres, seis pessoas foram presas por estarem bêbadas e causarem problemas. Além de Liverpool Street, no centro financeiro da cidade, a estação de Baker Street e os trens da linha amarela também foram muito procurados pelos interessados em beber até o último minuto possível. A proibição no consumo de bebidas passa a valer neste domingo em toda a rede de metrô, ônibus e bondes de Londres. Também fica proibido carregar garrafas, latas ou outros objetos contendo bebida alcoólica se estiverem abertos. O prefeito alega que a proibição vai melhorar a segurança dos passageiros, mas sindicatos que representam os funcionários da rede de transportes dizem que fiscalizar a nova lei vai colocar em risco a segurança desses profissionais. Alguns dos participantes da "festa" deste sábado disseram estar protestando contra a proibição, mas muitos admitiram estarem apenas querendo beber e se divertir.
PS: desculpem novamente a falta e acentos (ainda estou usando PCs publicos) e fico devendo a historia das green bags.
Escrito por Patrícia Diguê às 10h51
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Em breve: A febre das green bags... See you
Escrito por Patrícia Diguê às 08h18
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Life before death
"I want so very much to die. I want to become part of that vast extraordinary light. But dying is hard work"./"Death is nothing. I embrace death. It is not eternal. Afterwards, when we meet god, we become beautiful”./“I’m only 64. I shouldn’t be wasting away like this at that age”.
Uma das vantagens desta cidade e ter acesso gratuito a cultura. So nao se informa e busca conhecimento quem nao quer. Exposicoes, apresentacoes, bibliotecas etc, tem muita cultura de graca. Ontem, estava adiantada para um compromisso, vi um cartaz com a palavra "free" em frente a uma especie de museu da Medicina e resolvi entrar para passar o tempo. Acabei tendo momentos profundos de reflexao com a exposicao de fotos "Life Before Death". Um trabalho incrivel de uma jornalista chamada Beate Lakotta e o fotografo Walter Schels, que acompanharam 24 doentes terminais em suas ultimas semanas de vida. Eles fotografaram as pessoas em vida e registraram suas impressoes sobre o que significa a morte para elas. E depois tambem registraram seus rostos ja mortos. Parece morbido, mas pensar sobre a morte, nos faz dar muito mais valor ao que realmente tem valor em vida. Mas quem esta vivo, evita pensar e falar sobre isso, como disse um dos personagens da exposicao: "No one asks me how I feel, because they're all shit scared. I find it really upsetting the way they desperately avoid the subject, talking about all sorts of other things. Don't they get it? I'm going to die! That's all I think about, every second when I'm on my own". As frases acima sao fragmentos dos relatos de alguns deles. Emocionante. Quem quiser mais informacoes, o site e http://www.wellcomecollection.org/index.htm.
Escrito por Patrícia Diguê às 08h14
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Tulipas
Dear P.
Aquela praca esta diferente agora no verao. No lugar das grandes folhas de outono que escondiam todo o chao e davam abrigo aos esquilos, agora desabrochou uma grama verde e brilhante, onde as pessoas deitam para tomar sol. Em vez da paisagem marrom e fria, agora florescem tulipas e outras flores coloridas, alem de margaridinhas que se espalham como capim, dando pinceladas de branco em meio ao verde. As tulipas, em especial, tem poder enigmatico sobre mim. Sao de uma infinidade de cores. Existem ate umas roxas escuras, parecendo negras, ainda mais estonteantes. Passei por aquelas mesmas ruas e esquinas. Esta tudo igual, mas, com esta explosao de cores, andar por elas teria um colorido e um aroma especial. Best regards... P
Escrito por Patrícia Diguê às 07h50
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Sheikh Lula
Uma reportagem no The Guardian sexta-feira trouxe uma expressao que achei engracada, "sheikh Lula". Com o titulo "The country of the future finally arrives" (O Pais do futuro finalmente chega), a materia falava da estabilidade da economia brasileira, depois de anos de ditadura e de inflacao. Ainda mencionava a ascensao dos mais pobres a classe media, atribuindo como principal causa o aumento no consumo de commodities no mundo. E acabam chamando o Lula de sheik quando citam as novas descobertas de reservas de "oil" na costa do Rio de Janeiro, o que pode colocar o Brasil entre os principais produtores do mundo. Em tempo: a reportagem faz o devido contraponto de que o Pais ainda tem serios problemas de infra-estrutura, alem de deficiencias na formacao de mao-de-obra e na educacao em geral e tambem na area de saude. Quem quiser ler a materia completa, o link e: http://www.guardian.co.uk/world/2008/may/10/brazil.oil
Escrito por Patrícia Diguê às 07h38
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