Olhar Atento (por Patrícia Diguê)


Amsterdã é aqui

Confiram meu post de hoje no Blog 3x30: http://3xtrinta.blogspot.com/2011/04/amsterda-e-aqui.html
Tudo bem que tem muitos lugares neste Brasilzão que estão mais para o Haiti. Mas um passeio no último domingo me fez me sentir mais em Amsterdã (capital mundial das bicicletas) do que em um grotão da América Central. E me trouxe otimismo em relação à capacidade dos seres humanos de inventar soluções para o nó que se tornaram as grandes cidades. Havia muito tempo planejava experimentar a ciclofaixa de 30 quilômetros criada pela Prefeitura de São Paulo (http://www.ciclofaixa.com.br/ ), que liga quatro parques, e finalmente consegui. Pedalei com um sorriso no rosto e voltei de alma lavada para casa, não só pelo prazer da atividade física, mas principalmente por constatar o sucesso de um grande projeto.

Alternativa à deficiência de ciclovias na cidade, a ciclofaixa é super bem sinalizada e passa por lugares agradabilíssimos, como os parques das Bicicletas, o Ibirapuera, o do Povo e o Villa Lobos. Surpreendi-me com a obediência às regras de trânsito e mãos de direção por parte dos ciclistas e com o bom humor de todos os apoiadores pelo percurso. Eles ficam nos semáforos cuidando para que ninguém passe no sinal vermelho e fazem questão de dizer aquelas frases tão simples e essenciais no dia a dia de uma sociedade civilizada (“bom dia”, “bom passeio”, “boa Páscoa”, “bom descanso”, “força”, “tchau” etc). Sem falar na sensação de passar de bicicleta em vias usualmente perigosas e ainda podendo apreciar a paisagem paulista. A gente se sente seguro atrás daqueles cones e pode se dar ao direito de se distrair com uma árvore florida ou uma característica arquitetônica. Ver famílias inteiras e crianças sorridentes com suas bicicletinhas naquelas avenidas onde quem mandam são os carros foi extremamente gratificante.

Sei que a cidade não se tornou completamente segura para os ciclistas só por causa desta iniciativa. Posso dizer com conhecimento de causa o quão perigoso é sair pelo meio do trânsito de bike. Mas recomendo esta opção saudável de lazer e convido os que estão desesperançados com a cidade a recuperar a confiança por lá. Assino embaixo para que o serviço funcione em um horário mais prolongado e também nos feriados, como aconteceu experimentalmente no feriado de Tiradentes (hoje, é só aos domingos, das 7 às 14h). Por uma São Paulo cada vez mais cheia de ciclofaixas, ciclovias, parques e, consequentemente, gente mais saudável e feliz.



Escrito por Patrícia Diguê às 17h57
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Bons, mas tristes ares

Confiram meu post de hoje no Blog 3x30: http://3xtrinta.blogspot.com/2011/04/bons-mas-tristes-ares.html

Fui para a Argentina pela primeira vez na semana passada e encontrei uma Buenos Aires muito diferente da que os amigos comentaram antes da minha viagem. Sim, come-se e bebe-se bem por um preço menor. Sim, compra-se artigos de couro mais baratos (tudo é mais em conta já que o real vale o dobro que o peso). E, sim, lugares como Puerto Madero e a feira de San Telmo são mesmo inesquecíveis. Ah, e, sim, los argentinos son muy guapos. Mas voltei triste e decepcionada da viagem e enxerguei em apenas três noites e três dias o que significa viver em um país que há décadas enfrenta governos corruptos e populistas e sofre com a inflação, o empobrecimento da população e o descrédito no mercado internacional. Semelhanças com o Brasil de muito pouco tempo atrás não são mera coincidência, mas um câncer em constante metástase em toda a América Latina.

Nem mesmo o entorpecimento em meio a alfajores, parrilas e vinhos me impediram de perceber as ruas completamente desertas no Centro depois que anoitece (por isso, me olhavam com tanta estranheza ao circular por lá), as vendinhas de rua comercializando suas mercadorias através de uma grade à noite, as filas imensas para se tomar um ônibus (mesmo fora do horário de pico) e os mendigos vasculhando os cestos de lixo em toda esquina. Nas lojas, balconistas te aconselham a tomar cuidado com a bolsa.

Teriam sido somente observações de uma turista mais atenta se estas feridas abertas não tivessem sido esfregadas na minha cara e da minha amiga Carla (aquela do post da melhor amiga) durante os três dias. Já na ida do aeroporto para o hotel, caímos no golpe do troco (aliás, foram dois golpes, porque chegamos em voos diferentes, portanto, pegamos táxis separadas). O primeiro prejuízo. Quando estávamos quase perdoando os taxistas por viverem em um ambiente de salve-se quem puder a ponto de usarem o ofício para agir criminosamente, outro golpe nos abalou e entristeceu. Um puguero (batedor de carteira) roubou a carteira da minha amiga em uma feira de rua. Mais prejuízo, mais transtorno.

O que trouxe de bom na bagagem foi poder desabafar no ponto de táxi do aeroporto na volta. Sim, rodamos a baiana lá e até a polícia veio ver o que acontecia. Pelo menos alguma coisa ficou registrada e, quem sabe, algum outro turista desavisado não sofra o mesmo que a gente. Além de paisagens bonitas, algumas pessoas valeram a pena também. Uma professora de tango no hotel, um panamenho sozinho na noite, uma família de nordestinos bem feliz, um camareiro prestativo. Espero que nas eleições presidenciais deste ano os argentinos possam eleger pessoas que, como o nome da capital já diz, lhes tragam melhores ares.



Escrito por Patrícia Diguê às 15h27
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Ode à tattoo

Confiram meu post de hoje no 3x30 Solteira, casada, divorciada: http://3xtrinta.blogspot.com/2011/01/ode-tattoo.html

 É apenas um desenho na costela, mas me trouxe mais sensações boas do que podia imaginar. Primeiro que a minha tatuagem vinha sendo adiada havia quase duas décadas. Eu tinha uns 17 ou 18 anos e um amigo meu dava seus primeiros traços em suas primeiras “vítimas”. Apesar do incentivo, fui adiando, em parte por medo, outra pela dificuldade de encontrar uma figura que merecesse repousar eternamente sobre a minha pele.

         Alguns anos atrás, a vontade voltou com força e o desenho surgiu na minha mente como algo mais do que óbvio. Era a borboleta que certa vez havia pousado na minha mão em uma cachoeira e virou uma foto digna de cartão postal. Era uma 88, aquela que tem esse número nas asas. Para meu espanto, estava eu dias atrás fazendo faxina na papelada velha e me deparei com ela de novo dentro de uma agenda. Era uma daquelas fotos de bicho que vinham no chocolate Surpresa, lembram? A surpresa maior foi constatar que o ano da agenda era de antes da foto da cachoeira. Era o “sinal” que faltava... Depois de toda essa sincronicidade, catei o desenho já amarelado do chocolate e aterrissei no estúdio. O tatuador foi ninguém menos que o meu amigo de infância, hoje um profissional dos mais respeitados e famosos.

         A minha 88 ficou perfeita e é indescritível a sensação de ter conseguido materializar uma ideia que ficou ruminando por anos na minha cabeça. Sempre me sentia frustrada quando falava do assunto. Como não conseguia me organizar para fazer uma simples tatuagem? Ano após ano e nada...

Para as outras pessoas, não passa de um desenho. Mas, para mim, vê-la com “vida” todos os dias aqui na minha pele me faz lembrar que, sim, é possível realizar tudo que a gente sonha, dos pequenos projetos, como este, aos grandes. O mecanismo é o mesmo: dar um passo, depois outro e outro...

Que 2011 seja de transformação, inspiração, liberdade e cor para todo mundo que sonha.



Escrito por Patrícia Diguê às 12h41
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Bilheteiro sem noção

Confiram meu post de hoje no 3x30 Solteira, casada, divorciada: http://3xtrinta.blogspot.com/2010/10/bilheteiro-sem-nocao.html

Não é de hoje que vou ao cinema sozinha. Tem gente que diz que não consegue. Confesso que quando me separei (seis longos anos atrás), fiquei um ano sem frequentar essas salas escuras cheias de casais insuportavelmente apaixonados. Aliás, nem DVD cabia na minha vida. Mas passados os primeiros meses de desespero, voltei a encarar o programa sem dor no coração. É libertador, divertido, barato e um ótimo passa-tempo. Sozinho você pode, por exemplo, comer o que quiser, até de boca aberta, e dar risadas espontâneas sem fazer tipo de princesa pro gatinho ao lado.

Acontece que recentemente estive em um cinema tradicional na minha nova vizinhança, o Centro de São Paulo, lugar tradicionalmente conhecido pela diversidade (lê-se pessoas de todos as sexualidades).

Comprei meu ingresso para o “À prova de morte”, do Quentin Tarantino, e fiquei esperando na ante-sala, na companhia de uma revista. Leve e alegre, trocando ideia com um menininho, também solto e feliz com seu litro de coke do Mc Donald’s. Ficamos falando sobre Karatê Kid e ele até me ofereceu um pedaço do sanduba.

Na hora de entrar, entrego o ticket para o rapazote da entrada e, para o meu espanto, ele lança: “Só você?”. Apenas balancei a cabeça que sim e dei uma olhadinha para trás para me certificar de que era comigo mesmo. E fiquei imaginando ele lá com pena de mim. Não tive raiva não, só pena de como os seres humanos são presos por estereótipos e se atrapalham quando alguém esboça uma mínima tentativa de quebrá-los.

Mas, depois, refletindo, cheguei à conclusão de que o comentário foi até útil nesta minha saga insana de tentar entender o mundo. Ele me fez lembrar que eu até tinha esquecido que estava sozinha. E fiquei feliz, porque, como dizem por aí, a gente só está realmente em paz quando suporta a própria companhia. Então tá!



Escrito por Patrícia Diguê às 00h44
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Confissões de um pegador

Post de hoje no "3x30, solteira, casada, divorciada": http://3xtrinta.blogspot.com/

Não vou dizer o grau de parentesco para que ele não seja julgado ao vivo (aqui, pode). Mas recentemente me confessou, em uma caminhada pela praia, o que realmente se passa na cabeça de um pegador. O papo começou quando comentei com ele que não entendia como que alguém que dividiu coisas boas com você simplesmente desaparecesse. E ele me explicou:

- Pá, é o seguinte: o cara até deve gostar, mas como não quer compromisso, prefere sair fora antes que vire namoro, já fiz isso várias vezes.

- Ah tá. Mas podia ter dito isso né, pôxa?

- Mas é mais fácil sumir do que ter que olhar no olho.

- Humpf.

Meu pegador não tem um compromisso amoroso há uns 10 anos, mas sempre mantém uma pessoa que ele chama de “titular”. São meninas que têm a resiliência de aguentar sucessivas humilhações, como vê-lo beijar outra em uma balada no dia do próprio aniversário. E ficam anos se alimentando de migalhas na esperança de que um dia ele irá se “endireitar” e, como num toque de mágica, decidir ficar só com elas.

- Mas por que você não consegue gostar de verdade delas?

- Pá, eu gosto delas, muito mesmo, juro que gosto. Mas eu não consigo ficar sem sair sozinho, é mais forte do que eu. Quando vou num bar e vejo aquele monte de mulher, não aguento, eu quero todas.

Ele me descreveu o que seria um relacionamento ideal - quase morri de rir (desculpem, mas é tragicômico):

- Pá, se fosse possível, gostaria de ter uma namorada linda dentro do meu guarda-roupas. Aí quando chegasse, cansado, precisando de carinho, era só abrir e pegar. Ela dormiria comigo e de manhã eu guardava ela de volta.

Achei muito sincero ele compartilhar esses tão profundos sentimentos, provavelmente resquícios subconscientes da época dos homens das cavernas.

O sol já se punha e o vento gelado já batia, quando meu querido pegador acabou confessando que no fundo não desistiu do amor não - desculpem pelo querido, porque vocês já devem estar achando ele um crápula, mas é que ele realmente é uma pessoa sensacional, a melhor companhia para qualquer programa.

Ele tem certeza que um dia encontrará a mulher dos seus sonhos, aquela que o fará esquecer todas as outras:

- Pá, eu sei que ela existe. Eu sonho com ela.

- E como ela é?

- Ela não mora nesta cidade, ela é do sul. Ela tem os cabelos castanhos, lisos, é branca, falsa magra, tem uma profissão, cuida da vida dela e tem uma família parecida com a minha, desencanada. Pode ser uma mestiça também, que adoro. Pá, ela vai me amar tanto, tanto, que quando ela me vir triste ou bravo vai cair uma lágrima do olho dela.

- E onde você vai encontrá-la?

- Não sei, só sei que ela existe e está me esperando em algum lugar.

No final das contas, até os brutos amam, de um jeito peculiar, mas amam.



Escrito por Patrícia Diguê às 00h33
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Tenho em mim todos os sonhos do mundo

Meu post de estreia no blog "3x30, solteira, casada, divorciada": http://3xtrinta.blogspot.com/

“Sou vários”. Assim se definia Fernando Pessoa, com suas dezenas de heterônimos em diversas línguas. Aprendi isso dias atrás na exposição em homenagem ao poeta no Museu da Língua Portuguesa (um lugar lindo por sinal). Como andava ansiosa para esta minha grande estreia no blog, comecei a pensar se não seria legal inventar uns outros nomes para mim mesma. Assim, como ele, poderia incorporar personagens sem medo de me expor, me aprofundando nos mais escusos sentimentos de cada um deles. Pensei em inventar pelo menos três: uma Patrícia romântica, uma devassa e outra toda quadradinha. E também ser eu mesma quando me convier. Se precisasse, eu matava um desses personagens, como o genial Pessoa fazia, e criava outros e outros e outros.

Mas de repente me dei conta de que não preciso assinar nomes diferentes para ser tudo isso ao mesmo tempo ou mudar de personalidade de tempos em tempos. Percebi que, aliás, querer ser a vida toda uma coisa só cansa. Tentar se encaixar em modelos então... que coisa mais exaustiva e frustrante. Quero mais é mudar toda hora de ideia sem peso na consciência. Ser às vezes santa, às vezes nem tanto (pra não usar palavras chulas logo no primeiro post)... Ficar solteira, casada ou separada quantas vezes for necessário. Tudo menos o medo, tudo menos a inércia. Porque atrito provoca mudança e é o motor das nossas revoluções. O importante é continuar tendo em mim todos os sonhos do mundo (parafraseando Pessoa novamente, ou Álvaro de Campos, seu heterônimo mais existencialista). E espero dividir tudo isso com vocês, de alma nua e coração aberto
.



Escrito por Patrícia Diguê às 01h05
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Minha planta me ensinou

Quando me mudei para este apartamento no Centro da Cidade havia lá dois vasos de planta enormes que resolvi me livrar, seguindo minha filosofia de simplificar ao máximo minha vida para ter tempo para coisas realmente importantes, como trabalhar e estudar. Mas decidi deixar um menorzinho. Olhei desconfiada para a planta, como se dissesse: “Você não vai me encher o saco né?”. Até que arrumei um cantinho charmoso para ela, apesar da sua aparência ruim, com as folhas queimadas e cheias de pó. Não achei que ela durasse muito anyway. Mas cumpri minha obrigação de dona dela, regando dia sim dia não, limpando a poeira e retirando as folhas mortas. Até que um dia, surgiu um botão, ainda não sei se é flor ou se é folha. Parece folha. Mas o que mais me surpreendeu foi minha reação. Nunca achei que ficasse tão feliz em ver aquilo. Foi como se de repente percebesse que ela fosse uma coisa viva. E que éramos somente nós duas ali naquele pequeno espaço. De repente também me dei conta do quanto ela era frágil e precisava de mim.

Mas aí conclui que ela é que estava me dando uma lição, mesmo ali paradinha, quieta, todos os dias me esperando chegar. A plantinha me mostrou que a gente pode passar por um período em que nos sentimos apagadas e sem importância no canto de uma sala. Esquecidas, com pó se acumulando sobre nossas cabeças. Ignoradas, usadas, desprezadas e envelhecidas. Mas que basta só um pouquinho de cuidado e atenção, para que desabrochemos de novo e voltemos a encantar. E que ressuscitar de uma fase ruim leva um pouco de tempo, não basta regar só um dia e esquecer. Ela se tornou a minha mais nova amiga inseparável. Sinto-me como o pequeno príncipe que rodou o mundo mas precisava voltar ao seu planeta, um lugar inabitado, mas que abrigava sua única e inofensiva flor.



Escrito por Patrícia Diguê às 12h50
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O traveco do banheiro

Saí apertada da sessão no tradicional Cine Marabá, numa das mais famosas avenidas de São Paulo, a Ipiranga. Corri para o banheiro antes que o cinema fechasse depois daquela última sessão. Enquanto me aliviava, ouço pessoas barulhentas entrando. Digo pessoas, porque fiquei na dúvida, já que eram vozes de homens tentando imitar mulher, naquele tom e ritmo que só travestis conseguem emitir. Fiquei intrigada e curiosa para checar logo a aparência daquele pessoal. Até que uma delas entra na cabine ao lado. Instantaneamente, abaixo bem a cabeça e tento olhar por debaixo da divisória. E, para meu espanto (choquei, elas diriam), a minha vizinha urinava virada para a privada. Conclusões tiradas, tive que segurar o riso diante de tão hollywoodiana situação. No caminho para a pia, aproveito para finalmente matar minha curiosidade. Eram três amigas: uma parecida com homem e mais duas loiras de peitos enormes. Não consegui segurar minha imaginação, que visualizou na hora aquela mulher peituda e maquiada abrindo a baguilha da calça apertada e mirando a privada. Por alguns segundos, senti-me como se fosse eu a estranha. E saí. Já havia estado em bares onde só há banheiros unissex devido à sexualidade indefinida da galera. Mas dividir o banheiro do cinema com os travecos foi inesquecível. Meu domingo melancólico terminou ótimo. Uma viva à diversidade, à liberdade e ao Centro da cidade.

 



Escrito por Patrícia Diguê às 00h22
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Lição de jornalismo de Montaigne

"Esse homem com quem estive era simples e grosseiro, o que é condição própria para dar testemunho verdadeiro, pois as pessoas finas observam mais as coisas, e bem mais curiosamente, porém as glosam. Para impor sua interpretação e persuadir, acabam por alterar um pouco a história. Eles nunca vos representam as coisas puras, inclinam-nas e mascaram-nas com a face que nelas viram. Para dar crédito a seu julgamento e sedurzir-vos, apresentam de bom grado a matéria daquele lado, alongam-na e amplificam-na. É preferível um homem de grande fidelidade ou tão simples que não tenha por que fantasiar e sacrificar o verdadeiro aspecto das coisas às suas falsas invenções; e que seja imparcial.

Assim era o meu, e, para mais, fez-me conhecer em várias ocasiões marinheiros e comerciantes, que encontrara nessa viagem. Limito-me, pois, às suas informações sem me valer dos relatos dos topógrafos.

Necessitaríamos de topógrafos que nos descrevessem os lugares que visitaram. Mas, esses topógrafos, pelo fato de terem visto, por exemplo, a Palestina, julgam gozar do privilégio de nos dar notícias do resto do mundo. Gostaria que todos escrevessem do que sabem e tudo que sabem, não somente de viagens, mas de todos os outros assuntos. Acontece que alguns podem ter especial ciência e experiência da natureza de um rio ou de uma fonte, e não saber do resto senão o que todos sabemos. Todavia, para divulgar esse pequeno quinhão de conhecimentos, aventuram-se a escrever toda a física. Deste vício decorrem vários e grandes inconvenientes.”

(Em “Os Canibais”, de Michel de Montaigne – 1533-1592)



Escrito por Patrícia Diguê às 12h53
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Classe “Z” jogada aos cães

Saí andando. Assim foi meu último dia de folga. Andei tanto que nem sentia mais os pés. Deve ter sido por horas, nem sei quantos quilômetros. Pra quem conhece São Paulo, do Paraíso a Pinheiros.

Um grupo de gays empolgados com a Parada. Outro de chineses (ou seriam coreanos?). Fashionistas desfilando combinações ininteligíveis. Um mendigo pega uma bituca do chão. Um casal de adolescentes dá beijos molhados encostado em uma parede. Faixas de pedestre congestionadas. Uma mulher de rua ensaia um discurso político. E uma emissora de TV grava um programa de humor.

Imagens aceleradas e atordoantes vão passando uma atrás da outra. Como em um transe, não sinto mais cansaço e vou cruzando diversos olhares, infrutíferas e efêmeras tentativas de contato humano.

Saio da Avenida Paulista, um lugar que nos remete a qualquer outra grande capital no mundo - tenho a impressão de que sejam todas parecidas, com altos prédios, grandes lojas e gente apressada.

Descendo pela Rebouças, uns mendigos me chamam a atenção. Por mais que eles sejam muitos e estejam em cada esquina, não consigo fechar os olhos para esses grupos. Embaixo de um viaduto, havia três “camas”, algumas carroças e cachorros. Na terceira cama, um deles dormia de conchincha com um dos cães. Sim, desse jeito que vocês devem estar pensando: abraçados e ele com o nariz na nuca do animal. Singelo se não fosse trágico.

Andam dizendo por aí que a classe C ascendeu socialmente. Mas e as outras letras? Da “D” à “Z”?

Continuei minha caminhada na metrópole, mas matutando:

Que país é esse que joga seus cidadãos aos cães?

 

Trilha deste post: http://www.youtube.com/watch?v=DkfW0Mre0h8



Escrito por Patrícia Diguê às 18h23
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Reverso

Sou normal?

Trocando homens por livros,

Pênis por amigos.

E bebendo,

Em vez de parindo?



Escrito por Patrícia Diguê às 11h24
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Joia cadente

Você chegou como quem quer conquistar o direito de ser dono de uma joia rara.

Quase chegou lá. Mas desistiu.

Só que quando resolveu virar as costas e voltar, a joia já deslizava em sua direção.

E foi então que ela caiu. E embaixo havia um precipício.

Ela desabou. E doeu. E machucou.

Houve cicatrizes. E marcas que, em pele crescida, não desaparecem.



Escrito por Patrícia Diguê às 01h15
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Torcia pelos Nardoni

Quando a Isabella morreu, dia 29 de março de 2008, eu estava de malas prontas para uma longa jornada e o desenrolar da tragédia me parecia uma história distante, a 10 mil quilômetros do Brasil. Os sites de notícias só falavam disso e as pessoas para quem eu telefonava também. Mas minha mente estava ocupada com a necessidade de sobreviver em uma terra estranha. Mal podia imaginar que, dois anos depois, estaria na mesma sala que os assassinos.

Meu estômago gelou e um arrepio passou pela minha espinha ao entrar no plenário frio e de atmosfera pesada do Fórum de Santana naquele 25 de março de 2010. O promotor de pé em frente interrogando o réu, que estava de costas para mim. “Não me recordo, excelência”, era o que ele mais repetia, se esquivando do que preferia não responder. Sua atitude era mais de impaciência e incômodo do que de revolta ou tristeza.

Mais tarde foi a vez da madrasta falar. E por mais que suas lágrimas e voz suave tentassem, era difícil sentir amor em suas palavras quando ela falava da menina.

No dia seguinte, o advogado de defesa terminou a construção da tese de que eles eram um casal de caráter e o promotor, por sua vez, de que ambos eram pessoas desequilibradas.

Naquele momento (último dos cinco dias de julgamento) percebi que, no fundo, torcia para que eles fossem inocentados. Não por ter sido convencida por seus depoimentos de frases feitas e choros forçados. Muito menos por misericórdia.

Torcia para que tudo aquilo não fosse verdade. Renegava o fato de um pai ter agredido de tal forma a própria filha de apenas cinco anos e, em um ato de loucura ainda maior, tê-la jogada ainda viva daquela altura.

Na hora em que o juiz proferia a sentença, a maioria dos dezenas de jornalistas se amontoava em volta da mesa de entrada do sagão do fórum, onde de um alto-falante era possível ouvi-lo. Ao ser confirmada a condenação, os rostos dos colegas não estavam sisudos e com cenhos franzidos somente pelo peso do trabalho. Era, certamente, tristeza, também. O que senti foi um clima de derrota e desânimo, que destoava dos fogos de artifício que já estouravam do lado de fora. Uma grande decepção com um tipo de mundo que permitira que a Isabella morresse em circunstâncias tão cruéis. Um vazio. E só.



Escrito por Patrícia Diguê às 02h03
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Mesa de edição

Não tem problema, porque eu voltei a minha vida para alguns minutos antes de eu me levantar do sofá naquele bar naquela noite. O que eu fiz foi reeditar a fita. Em vez de me levantar, fiquei sentada lá, cansada, foi então que a minha amiga sugeriu que fôssemos embora. E a noite acabou assim. Então não fomos apresentados, você não ficou conversando comigo, não nos encontramos on line depois, você não pediu para que eu te fizesse companhia e eu nem reparei no seu sorriso. Não houve também desencontros. E, quando te encontrei por acaso na rua, você era só mais um na multidão, em vez de uma feliz coincidência. Ato contínuo, você também não atravessou a cidade para me ver de madrugada, muito menos experimentou a minha cama. Enfim, só foi mesmo necessário apertar um botão para rebobinar, outro para apagar e pronto, você nunca existiu.



Escrito por Patrícia Diguê às 15h00
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Entre as veias de São Paulo

 

Um mês em São Paulo. Entre as dezenas de características da Cidade e comportamentos dos paulistanos que me surpreendem (às vezes negativa, outras positivamente), o que mais me chama a atenção é a incrível capacidade que o pessoal tem para inventar formas de ganhar a vida. Quem por aqui já circula há muito tempo, talvez nem pare para reparar nestas coisas. Mas eu me espanto toda hora.

Numa das minhas voltas pra casa, num dos muitos dias chuvosos de São Paulo, me surpreendi com a entrada pela porta de trás do ônibus de um homem carregando um enorme saco. Mostrando contagioso bom humor, se pôs a botar saquinhos de Doritos nas mãos das pessoas. Até parecia promoção. "Doritos e pacotes de bolacha de chocolate, qualquer um R$ 1,00".

Espremendo-me no meio daquela gente cansada do dia todo de trabalho, achei uma maravilha o serviço de bordo. E comi feliz o salgadinho. Dali, foi mais de uma hora de viagem, num trecho que normalmente levaria 20 minutos.

Fiquei olhando para o vendedor um tempão. E imaginando que aquele cara era muito mais esperto do que eu, infinitamente mais criativo e com uma inteligência emocional incalculavelmente mais desenvolvida. Sem falar, que não demonstrava qualquer indício de timidez, falando calmamente em meio àquele público todo. “E tá crocante”, comentou uma moça do meu lado, que também parecia bem feliz.

Outra garota, que estava antes da roleta, gritou e pediu dois. Foi nessa hora que notei que dentro dos ônibus há cesto de lixo, bem do lado do cobrador. Vi um homem jogando o saquinho vazio lá e fiquei contente de saber que a educação às vezes chega às camadas menos favorecidas (só às vezes, porque ontem uma garotinha jogou um pacotinho de bala pela janela do metrô – o saquinho deu um voo rasante na senhora de trás, que ficou sem entender de onde havia partido tal ameaça).

A complacência dos cobradores em relação a esses lutadores da vida também é admirável. Parece existir uma condescendência velada em relação a essas milhares de pessoas que penetram em pequenas frestas do jogo social a fim de levar comida todos os dias pra casa. É assim em relação aos camelôs, por exemplo, e vendedores ambulantes em todo o canto.

Bom, em se falando de criatividade, não há concorrência para os camelôs. Eles trocam de produtos conforme a necessidade do cliente (vendendo guarda-chuva quando está chovendo, por exemplo), mudam de local conforme o movimento, driblam a fiscalização etc.

Mas foi outro novo “negócio” que também me encantou pela criatividade. Nas esquinas de quase todos os pontos de ônibus movimentados, você encontra uma barraquinha de café da manhã. São a maioria mulheres, que trazem, em um carrinho de feira, garrafas térmicas com leite e café, e também pães e bolos caseiros. As bancas ficam lotadas.

Comentei tudo isso com uma amiga, que disse que não se trata de novidade. “Você nunca tinha visto? Nossa, é normal”.

Não, não é normal não. Só pensei, pra não contrariar sua visão viciada de achar que isso tudo “é assim mesmo”. Pessoas se virando, vendendo tudo o que você pode imaginar pelas ruas - de abacaxi cortado a cadarço, de lenços a isqueiros, de trufas a óculos de sol -, é sinônimo de uma sociedade doente. Onde as pessoas não têm acesso ao mercado formal de trabalho e se encontram abandonadas pelo poder público. Que, por tudo o que a gente já sabe, não consegue se organizar para amparar quem precisa de apoio para levar uma vida minimamente digna.

Quando reflito sobre tudo isso, é inevitável lembrar dos lugares por onde passei nos últimos dois anos. Claro que a Europa possui uma democracia muito mais madura que a nossa, mas é triste constatar que em lugares como a Inglaterra, por exemplo, nem cachorros você vê abandonados na rua. Deixar uma criança desamparada então... soa surreal para eles, coisa de filme. Velhinhos beirando aos 80 anos debaixo de sol carregando cartazes de propaganda talvez virasse manchete de jornal por lá.

Que daqui pra frente, meu coração não fique anestesiado dentro desta grande selva, que continue como agora, se partindo em uma esquina e voltando a se encher na próxima. Assim é São Paulo.  



Escrito por Patrícia Diguê às 18h31
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Contramão na highway

Andar a passos bem lentos se ao redor todos se apressam.

Calar-se se, à sua frente, a disputa é por quem conhece mais palavras.

E também se, quem fala, só pra si fala.

Olhar nos olhos de quem se acha transparente.

E também ser indiferente a quem se julga suficiente.

Sorrir diante de um rosto em fúria.

Só ouvir, caso uma boca não cesse.

Desculpa, obrigado, por favor...

Ceder nos dá esse poder.

De atrair o que é belo e bom,

De sentir, perceber, surpreender e parar pra ver

E de viver sem causar tanta dor.



Escrito por Patrícia Diguê às 18h18
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Ah tá...

 - Ai gente, preciso ir embora, meu marido não pára de ligar.

- Ah, seu marido tá aqui na cidade com você então?

- Não, não, ele ficou em Portugal.

- Então por que você precisa ir embora? Não vai ao pub com a gente?

- Ah, não, já são quase 9 horas.

- Tá cedo.

- Ai, é que não gosto destas coisas sabe...

- Do quê?

- Sei lá...

- Mas a gente só vai dar uma passada, tomar uma cerveja e ir embora.

- Eu sei, mas, ai, sabe, não quero dar abertura pra ele fazer o mesmo, sabe como é?

- Ah... tá...



Escrito por Patrícia Diguê às 17h09
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O travesseiro da foto

Olhar aquela foto foi como entrar num túnel do tempo. Levou-a a 10 anos atrás. Estava numa fila pra pagar aquela primeira peça do seu enxoval. Um conjunto azul de lençóis, fronhas e edredon com motivos marítimos. Lembrava que conversava com a ex-cunhada na loja, só. E também que, depois, só havia aquele e mais um, amarelo, e os dois se revezavam incansavelmente entre o varal e a cama. Na hora da partilha, ele ficou com o azul de menino e ela com o amarelo de menina. Nunca imaginou que estas peças pudessem carregar tantos símbolos até se deparar com aquela foto. A fronha estava lá, já meio desbotada, cobrindo como de costume um travesseiro, mas, desta vez, nos braços de uma completa estranha.



Escrito por Patrícia Diguê às 17h00
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Ficou lá

Não.

Porque nosso momento passou.

Ficou lá.

Tivemos nossa chance. Nossas chances.

Somos outros.

Juntos, os coracões ficaram lá.

Congelados num instante.

Um café, um filme, um amanhecer.

Juntos, éramos.

Passado imperfeito.

Amo o que foi. Mas ficou lá.

Hoje, não há nada.

Ficou tudo lá.

Trilha deste post: http://www.youtube.com/watch?v=WgkkvtVuBDE&feature=channel



Escrito por Patrícia Diguê às 21h35
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Reflexões capitalistas

Já vou avisando que este texto não chega a lugar nenhum, se o que você procura são respostas.

Uma vez alguém que não lembro agora fez um comentário muito sábio sobre aquelas pessoas que vivem falando que adoram o que faz, como se estivessem em um patamar existencial superior ao da maioria dos mortais que xingam quando acordam pra ir ao serviço e não veem a hora de chegar a sexta-feira. Ele (acho que era homem) desafia estas pessoas a responderem se continuariam a fazer a mesma coisa que fazem hoje caso ganhassem na Megasena, tipo acordar cedo, bater cartão, ter 15 minutos pra comer, quando muito etc. Boa. Duvi-de-o-dó! A teoria dele virou uma das minhas frases feitas. Adoro soltar isso quando alguém vem com essa conversa, e depois rir sarcasticamente diante da óbvia reação.

É claro que existe certo prazer em se sentir útil ao dar um pedaço de sua existência para a sociedade através de um trabalho. Mas isso não deveria significar que a gente deve doar a maior parte e, pior, nossos melhores anos, não é? Pensando nisso, acho que a gente só trabalha mesmo porque não tem outro jeito e porque é bonito falar que se faz alguma coisa. Hugh Grant, no filme “O grande garoto” (About a boy) encena diálogos hilários quando questionado sobre o que faz na vida. “Nada”, ele sempre tem que responder. “Mas você nunca fez nada?”. “Não, nada”. É que ele vive dos direitos autorais de uma música que o pai inventou décadas atrás. E não consegue entender como as pessoas conseguem cumprir com as atividades básicas da vida e ainda por cima trabalhar, já que as dele tomam todo o seu dia. Realmente, nossa sociedade precisa evoluir para um estágio em que tenhamos tempo para o que há de mais básico e importante na vida, como cozinhar, comer, ir ao banheiro, tomar banho, cuidar da família, dormir, se exercitar, ler, visitar os amigos, passear com o cachorro, comprar pão à tarde na padaria, plantar uma árvore, escrever um livro, fazer um filho... coisas que a gente tenta espremer em meia dúzia de dias de folga por mês, durante os quais se está tão cansado que acaba-se não fazendo quase nada, exceto reclamar que não tem tempo.

Uma colega comentou uma vez que só percebeu que a vida dela tinha se resumido a trabalhar quando folheava um álbum de fotografias da família e notou que não aparecia na maioria delas. Aniversário da Aninha, estava de plantão. Casamento do Paulo e da Ruth, viajando a trabalho. Natal na casa da tia Julia, não foi porque tinha que trabalhar no dia seguinte. Além disso, ela se queixava que todo o restante na verdade eram apenas atividades coadjuvantes ao trabalho. Na hora de comprar roupas, era para trabalhar. Maquiagem, discreta para trabalhar. Sapatos? Confortáveis para trabalhar. De manhã, tomava banho para ir trabalhar. À noite, lia papéis para o trabalho do dia seguinte. Almoço? So um combustível para continuar trabalhando.

No futuro, talvez consigamos viver sem trabalhar tanto, afinal tem gente demais no mundo e não vai haver emprego para tanta gente. Deveríamos ser remunerados por várias coisas que hoje fazemos de graça. Cada vez que vissemos uma publicidade, por exemplo, afinal, a gente potencialmente iria gastar nosso dinheiro com o tal produto. Sem falar que em vez de pagar para ter canais em casa, deveríamos receber para isso, já que somos bombardeados com anúncios. Quando fizéssemos um filho, afinal isso dá um trabalhão. Mães deveriam ter um gordo salário. Ou, se o planeta já estivesse muito cheio, pagar para quem não tivesse filhos. Ganhar pelo lixo que se recicla (isso já é realidade, leia texto abaixo). Receber em vez de pagar inscrição para participar de eventos esportivos, já que as empresas fazem muito dinheiro com a publicidade. Ser pago para usar tal marca de celular ou provedor de internet, afinal, eles também nos usam para vender seus serviços, doar sangue e até pegar ônibus. São boas ideias para um próxima campanha eleitoral. Se alguém estiver interessado, elas também estão à venda. Yes, we can.

Videoclipe para este post: http://www.youtube.com/watch?v=i3fqjJVXh5o&NR=1



Escrito por Patrícia Diguê às 19h59
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Dinheiro

Este é um tema bem difícil, mas vou me arriscar.

Aconteceu de novo no último domingo. Mais uma vez tive que explicar porque não estou em outro país para “fazer” dinheiro. Mais uma vez provoco espanto e, de novo, termino a conversa com uma sensação entre irritada e incomodada. Irritada com o fato das pesssoas só encontrarem sentido nele e incomodada porque, nestes momentos, coloco em dúvida as minhas metas. Fico pensando se não estaria sendo estúpida por não aproveitar que estou em um país de moeda mais forte para juntar alguns trocados. Afinal, quase todo mundo à minha volta esta aqui só para isso, não importa a nacionalidade. E é incompreensível para eles (e extremamente cansativo para mim justificar) o fato de eu não ter um tostão e ainda estar feliz da vida.

Sempre que isso acontece acabo rebobinando a fita (os muito jovens não devem saber o que é isso porque só conhecem DVD) deste um ano e meio passado para checar se não fiz nada de errado. E chego à conclusão de que de jeito nenhum teria conseguido trabalhar ainda mais.

Embora nem todos os meus momentos aqui tenham sido literalmente trabalho e, consequentemente, não me trouxeram dinheiro, eles foram importantes peças deste meu atual quebra-cabeça e igualmente me mantiveram ocupada.

Gosto de pensar que existe um plano muito maior na vida de cada um, por isso que viver constantemente atras de “x” para comprar “y” me parece tão sem sentido. Opto por continuar acreditando que o dinheiro é mero detalhe ou uma natural consequência de uma vida pautada por valores e objetivos mais nobres. Acho que vou continuar preferindo, portanto, o espanto por não ter nada à inveja por ter acumulado muito.



Escrito por Patrícia Diguê às 08h09
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Duas medidas, uma lição

Duas notícias recentes na mídia inglesa me deram uma importante lição. Pretendo colocá-la em prática na primeira vez que entrevistar uma autoridade pública.

Muito e há muito tempo se fala da importância em se incrementar o transporte público no combate aos congestionamentos e, consequentemente, à poluicão. Quando se levanta o assunto, normalmente outro importante personagem além do ônibus acaba aparecendo na história: a bicicleta. Desde que cheguei em Londres, me deparo com cartazes de incentivo ao uso do veículo e também visando educar os motoristas para prestar atenção nos ciclistas. Sem falar em passeios ciclisticos, sites que oferecem mapas e rotas, sorteios de bicicletas e mais sinalização nas ruas. Apesar de tudo isso, posso dizer, com conhecimento de quem anda pedalando por aqui há um ano, que em Londres há pouca gente que usa a bicicleta para se locomover diariamente. Trânsito? Frio? Não sei mesmo. Só sei que na semana passada finalmente “ouvi conversa” e não “blá blá blá”. O governo pretende baixar os impostos para a fabricação das bicicletas, o que as tornariam muito mais baratas ao consumidor. “Olha só, pra isso que serve o Estado”, pensei. O resto é “perfumaria”, usando o jargão jornalístico usado para reportagens de menor relevância. Este pode ser o primeiro efetivo passo para conquistar a população, porque somente tentar convencê-la com frases de efeito definitivamente não vem funcionando.

Agora há pouco, na TV, mais uma ideia brilhante. Em uma área da cidade, a subprefeitura está dando cupons aos moradores, para serem gastos em supermercados e lanchonetes, em troca do lixo reciclável. Com isso, evita excesso nos aterros sanitários e consequentes multas ambientais. A dona de casa entrevistada parecia extremamente motivada com a possibilidade de juntar até 150 libras (cerca de R$ 500,00) por mês em cupons. Se lixo também é dinheiro, então o sistema faz todo sentido. A iniciativa chamou a atenção do governo londrino, que quer estendê-la a toda a cidade. Talvez este seja o arranque que faltava para atrair para a reciclagem aqueles que não foram convencidos através de simples campanhas de educação. E olha que reciclar aqui é uma operação relativamente fácil se comparada à do lugar de onde venho. Há contêineres de recolhimento por todo lugar. Em frente à minha casa tem. Só preciso atravessar a rua e jogar o plástico na caçamba de plástico, o jornal na caçamba de papel e assim vai.

Daqui pra frente, portanto, não engulo mais discurso de que a culpa disso e daquilo é da falta de educação das pessoas. E nem vou ficar satisfeita em saber que estão ensinando isso na escola, porque educar é providência de longo prazo. Fulaninho vai ter que explicar o que vai fazer pra mudar o hábito de quem ja saiu do Ensino Fundamental faz tempo e não vai morrer tão cedo. Sim, é possivel.



Escrito por Patrícia Diguê às 19h41
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Cheiro de ralo

Sempre me provocou reflexão as mil artimanhas e mecanismos de que o ser humano lança mão para disfarçar justamente o humano que tem em si. Refiro-me aos cheiros e fluidos que todos nós exalamos. À parte a óbvia e indispensável necessidade de higiene por meio das substâncias químicas que matam as bactérias, também temos a mania de botar sachê e perfume por todo canto, principalmente onde esses cheiros evoluem para um estágio ainda mais humano, o fedor. Enfim, dou essa introdução para compartilhar aqui o mais brilhante parágrafo que li em um livro nos últimos tempos. A seguir:


“As privadas nos banheiros modernos saem do chão como a flor branca do nenúfar. O arquiteto faz o impossível para que o corpo esqueça sua miséria e para que o homem ignore o que acontece com os dejetos de suas entranhas quando a àgua da caixa os leva gorgojelando cano abaixo. Os canos dos esgotos, ainda que seus tentáculos cheguem até nossos apartamentos, são cuidadosamente escondidos de nossos olhares e nada sabemos acerca dessas invisíveis Venezas de merda sobre as quais estão construídos nossos banheiros, nossos quartos de dormir, nossos salões de festas e nossos apartamentos.” (“A insustentável leveza do ser”, Milan Kundera, página 159, 1983).



Escrito por Patrícia Diguê às 18h26
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Mas eu te amava

Quando te conheci, seus cabelos cheiravam a escapamento e seu perfume era o do desodorante mais barato da farmácia da esquina.

Mas eu te amava.

Quando te conheci, nosso ninho de amor era um colchão já ondulado pela idade avançada e nossa trilha sonora vinha de fitas cassete gravadas de discos de vinil.

Mas eu te amava.

Caetano, Cult, U2 estavam todos na mesma seleção após longas horas em frente ao aparelho de som.

Suas camisetas muitas vezes cheiravam a gaveta e você fazia a barba com espuma feita de sabonete Lux.

Mas eu te amava.

Lembro que te amava mesmo quando usava uma zorba sem elástico, uma camiseta com furo ou uma meia trocada.

Quando te conheci, as flores que ganhava vinham do fundo do quintal e comer pizza fora era em ocasiões especiais.

Mas eu te amava.

Quando te conheci, você usava tênis, não sabia dar nó em gravata nem limpar direito a unha do pé.

Mas eu te amava.

Naquela época, seus cabelos batiam no ombro, seu peito cheirava a parafina e eu tinha que passar horas te esperando na praia.

Ainda assim, te amava

Te amava até com touca de banho cor-de-rosa, blusa do avesso ou calça um número maior.

Até quando esquecia as datas especiais, pechinchava cinquenta centavos ou alugava um filme repetido.

Naquela época, eu acabei concordando que não ter carro era descolado, que ir à praia com chuva podia ser interessante e que acampar era super confortável

Mas porque eu te amava.

Quando você contava a mesma história milhares de vezes, não ria da minha piada ou não levava a sério minha TPM, ainda assim eu te amava.

Quando te conheci, só te chamavam pelo primeiro nome, seus amigos chegavam sem avisar e no fim do ano você foi papai Noel.

Hoje, não te conheço mais. Mas, por favor, nunca se esqueça:

Eu te amava.

 


Tema musical para este post: http://www.youtube.com/watch?v=SMFlnTm6e7U&feature=related



Escrito por Patrícia Diguê às 12h21
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Os inúmeros Jeans de Londres

Não tive como não me emocionar hoje ao assistir ao trailer do filme “Jean Charles”, sobre o brasileiro que foi assassinado em Londres após o atentado ao metrô em 2005, por ter sido confundido com um terrorista. Até chorei e não vejo a hora de assistir. Emocionei-me por ver naqueles personagens as pessoas com quem convivo todos os dias, os inúmeros sonhadores que largaram tudo para ter uma vida mais ou menos digna. É triste constatar que o Brasil, de país que atraiu tantos imigrantes por mais de um século, agora se transformou em fonte de mão-de-obra barata. “Aqui brasileiro é que nem Gremlim, se jogar água nasce mais uns trezentos”, fala o Selton Mello na pele de Jean. Verdade, em Londres você ouve português por todo lado. Dizem que é o terceiro lugar com mais brasileiros no exterior. Em outra cena, Vanessa Giácomo, no papel da prima de Jean, se atrapalha no restaurante onde arrumou emprego por não saber falar inglês. Outra triste verdade: não é difícil encontrar conterraneos vivendo aqui há muitos anos e que se comunicam muito mal na língua da rainha. Pelo trailer, vai ter tudo que a comunidade brasileira na Inglaterra enfrenta, como problemas de documentação e o medo da deportação, a falta de dinheiro e a busca por emprego, além dos sonhos de viajar ou abrir um negócio no Brasil, a vontade de ajudar a família que ficou, a saudade, o dilema entre permanecer no exterior fazendo trabalhos pouco atraentes ou ir pro Brasil e não conseguir emprego e o saudosismo que bate quando deparam com algo essencialmente da terrinha, como mostra a cena em que Sidney Magal faz um show por aqui. Após uns meses fora, lembro de ter me divertido como nunca quando ouvi um funk dos mais baixos em um balada. Nas fotos do orkut, só festas e diversão. Nos dias de verdade, mais de um emprego, noites mal dormidas e o vazio da saudade. Ainda pelo filme, Jean era o alto-astral da turma, figura necessária em qualquer roda para dar força aos demais nos momentos de desespero. Uma pena ele ter estado àquela hora na Stockwell Station. Mais pena ainda, brasileiros terem que se sujeitar a tantas humilhações no exterior enquanto, nas manchetes dos jornais, o Brasil é só ordem e progresso. Parabéns à equipe do filme, que através da poderosa arma que é o cinema chama a atenção para a incompetência da polícia naquele momento, assim como a falta de eficiência em se punir os culpados, o que até hoje não aconteceu. Aguardemos a repercussão do lançamento por aqui. Estarei entre as primeiras da fila.

Assista ao trailer: http://www.youtube.com/watch?v=1jNuJpMUIzY



Escrito por Patrícia Diguê às 21h13
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Lágrima azul (Blue tear)

Aquela noite.

A última noite.

Tivemos que decidir o que jantar.

E antes de dormir, ainda na mesma cama,

nos demos um abraço longo,

de despedida, antes de partirmos para uma grande viagem.

Uma longa caminhada cheia de pedras e sombras,

em busca de nós mesmos.

Um longo e mudo tchau.

E foi quando vi raras lágrimas escorrerem dos seus pequenos olhos azuis.

 

(That night.

The last night.

We had to decide what to have for dinner.

Before going to bed, still on the same place,

we hugged each other for a long time.

It was a farewell, before starting a big journey.

A long way full of stones and shadows,

going after ourselves.

A long and mute goodbye.

And then I saw rare tears coming out from your small blue eyes.)

Trilha sonora para este post ("Soundtrack for this post): http://www.youtube.com/watch?v=JMkFjYRWM4M&NR=1



Escrito por Patrícia Diguê às 21h55
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Por trás das badaladas do Big Ben

Londres é uma esquina onde os dramas do mundo inteiro se cruzam. Após um ano tentando desbravá-la e entendê-la, poderia dizer que o que a move e a mantêm forte são os sonhos. Sonhos com raízes em todo cantinho do mundo. Sonhos que decidiram passar por aqui, como um túnel espinhoso que se deve atravessar pra se alcançar um jardim florido e ensolarado.

Comprar uma casa, abrir um negócio, conseguir um melhor emprego. É disso que falam as pessoas nos ônibus, metrôs, ruas, em suas dezenas de línguas e expressões peculiares. Vêm dispostos a qualquer sacrifício. Trabalham duro, fazendo o que os britânicos estudados em Oxford ou Cambridge nunca se sujeitariam, nem precisam. Embora o que se vê nos telejornais seja uma aparente linha dura contra a imigração, um número incalculável está aqui ilegalmente. Vêm como turistas e vão ficando. Esses são normalmente latino-americanos, asiáticos (lê-se Índia, Sri Lanka, Paquistão, Irã, Bangladeshi etc) ou africanos (Tanzânia, Moçambique, Algéria, Marrocos, Zimbábue, Etiópia, Zâmbia, Angola, Nigéria, Líbia etc). Quem está ilegal e não quer apelar para trabalhos não-idôneos (como trabalhar com documentos falsos, por exemplo), fica com as piores vagas. Geralmente não falam nada ou muito pouco de inglês e nem se preocupam muito com isso. Têm mais de um trabalho aliás, pouco saem para se divertir, muito menos viajam, já que seriam barrados nas fronteiras, e enviam cada tostão que sobra aos seus países. Muitas vezes até sustentam suas famílias no país de origem. Uma brasileira de 20 anos, de Joinville, está nesta situação há um ano. Faz faxina em hotel e, no momento, o dinheiro serve para ajudar os parentes a pagar uma dívida. “Minha mãe está doente e meu pai desempregado, então tenho que ajudar”. O próximo passo é conseguir dinheiro pra pagar uma faculdade. “Passei em Publicidade e Letras, mas tive que abrir mão, não tinha como pagar”. Veio atrás de uma prima e não tem ideia de quando voltará pra lá. “Não posso agora, e também, para que voltar? Pra ganhar 500 reais? Se não conseguir dinheiro para a faculdade não adianta”.

Um pouco acima desses na pirâmide, estão os cidadãos europeus, vindos principalmente do bloco pobre do continente, como Bulgária, Romênia, Polônia, República Checa, Hungria e até Portugal, Itália e Espanha. Eles legalmente podem viver e trabalhar no Reino Unido e entrar e sair quando quiserem, mas também ficam com o trabalho pesado. Você os encontra na construção civil, fábricas, empresas de serviços de manutenção e entregas, por exemplo. Nesta camada também estão os que têm dupla cidadania, como os inúmeros brasileiros com seus passaportes italianos e portugueses. “Não vejo como sobreviveria no Brasil”, diz a graduada em Administração que há 10 anos está fora do país. Após se formar, não conseguiu emprego e decidiu ir pra os Estados Unidos. Em situação ilegal, resolveu sair quando a fiscalização apertou após os atentados de 11 de Setembro e veio parar em Londres. Com cidadania italiana, esta na cidade há pouco mais de um ano e sustenta a família trabalhando em uma loja de roupas. O marido atua na construção civil. As filhas têm educação e saúde de graça.

Os europeus vêm atrás da moeda mais forte do que o frustante euro, na opinião da maioria deles. “Trabalhei na Itália nove anos, mas não estava mais tão bom, então decidi vir para cá”, diz um romeno que vive há sete meses na cidade e é da equipe de limpeza em um hotel. “Meu serviço é fácil, só preciso pilotar uma máquina desse tamanho pra limpar o chão depois que o pessoal varre”. Mas não está contente. Queria poder ter seu próprio apartamento em vez de dividir casa com outras pessoas e também ter condições pra comprar um carro. “Ainda não consegui guardar dinheiro”. O conterrâneo dele está decepcionado. Ele lava pratos em um restaurante desde que chegou, há um ano, e diz que pretende voltar para o seu país em breve. “A libra está fraca, não dá mais pra juntar dinheiro aqui”. Mas o olhar perdido demonstra que não saberia muito o que fazer hoje na Romênia.

Dentro da classe trabalhadora, estão ainda os braços dos milhares de estudantes que estão de passagem pela cidade. Uns vêm estudar inglês, outros fazer faculdade ou pós-graduação. Com exceção dos poucos afortunados que têm o privilégio de estudar no país sem precisar arrumar emprego, o restante trabalha duro. Sem poder legalmente ter um emprego de mais de 20 horas por semana, acabam arrumando serviços paralelos. Do contrário, vivem com um orçamento apertadíssimo, que mal dá para o aluguel de um quarto afastado do centro, transporte e comida. “Meu sonho é conhecer a França”, diz um jovem indiano que faz MBA e trabalha em uma loja no Centro de Londres. Enquanto come um número no Mc Donalds como jantar, conta que os pais o ajudam a pagar o curso e que provavelmente conseguirá um bom emprego quando voltar para casa. Os indianos, aliás, predominam na paisagem. Estão por toda parte e lotam as universidades. Adquirem empréstimos bancários, fazem a matricula e vêm. O que receberiam como salário minimo na Índia (R$ 200,00) ganham aqui em apenas dois dias de trabalho.

Essa parcela de sonhadores você encontra, além das lojas do varejo, nos cafés, lanchonetes, restaurantes, em eventos, fazendo panfletagem ou entregando jornal.

Por tudo isso que, circulando por Londres, você dificilmente será atendido por um inglês de verdade na rede de comércio e de serviços, com exceção dos próprios estudantes londrinos, que, muitas vezes, fazem também esses serviços mais pesados com objetivo de comprar um carro, viajar ou simplesmente ter mais dinheiro para roupas e baladas. Apesar que, ainda assim, são na maioria filhos de imigrantes, metade ingleses e metade outra coisa. Pessoas que, assim como os estrangeiros, também vivem nos subúrbios, fazem compras em supermercados populares e não viajam pela Europa nas férias.

Por isso que, aqui, quando entro em um Burger King, Pizza Hut ou Star Bucks da vida, fico observando aqueles soldadinhos fazendo lanches, limpando o chão ou lavando o banheiro. Olho nos olhos deles pra tentar descobrir o que sonham. Apesar daqueles uniformes desajeitados que lhes tiram a personalidade, fico imaginando o quão brilhantes e admiráveis podem ser, quais obstáculos em seus países pobres e corruptos os levaram a atravessar tantas fronteiras e o quanto devem sofrer por estarem longe de quem amam. Vejo-me em todos eles e me alivia constatar que não estou sozinha na difícil tarefa de sobreviver em um mundo onde tão poucos têm tanto e o restante se arrasta para ao menos conseguir colocar comida todos os dias na mesa.



Escrito por Patrícia Diguê às 17h25
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A medida do logo

Uma telegráfica mensagem um ano e meio depois emergiu os sentimentos há muito enterrados. Saudade, paixão, raiva e tristeza subiram como lava de vulcão. Andou como zumbi naquele dia tentando reconstruir todos aqueles intensos momentos que tanto havia se esforçado para dissipar. Lembrou que aquela tinha sido a última vez em que havia dado uma verdadeira chance para um novo amor. Lembrou que a história teve até trilha sonora e telefonemas na madrugada. Lembrou também que inconsequente e cegamente dirigiu quilômetros em troca de apenas dois dias e duas noites. E ainda que, como nos contos de fadas, não se sentiu cansada nem arrependida. Conseguiu com dificuldade colar os pedacinhos daquele fim de semana em que se sentiu verdadeiramente viva. Também se lembrou da despedida. Nenhuma lágrima ou tristeza. Apenas singelo tchau entre pessoas que logo se verão novamente. Esquecendo que “logo” está entre as mais subjetivas das palavras.



Escrito por Patrícia Diguê às 10h23
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Drummond apocalíptico

Raramente incluo palavras de terceiros neste espaço. Mas topei com este poema e me arrepiei em perceber a capacidade de certas pessoas em traduzir a alma humana e interpretar a época em que vivem.

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações nao encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

 

Elegia 1938

Poema da obra “Sentimento do Mundo”

de Carlos Drummond de Andrade

 



Escrito por Patrícia Diguê às 21h15
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O dia em que Darwin casou

Na escola, pelo menos no Brasil, a gente aprende que o homem é fruto de um processo evolutivo dos mamíferos, que lá nos primórdios andávamos até de quatro, como cavalo, boi e porco. E também que, dependendo do meio, certas características em uma determinada espécie representam ou não sua sobrevivência na Terra e, consequentemente, a chance de transmitir essas características aos descendentes. Isso explica, por exemplo, porque girafa tem pescoco grande e porque cobra não tem pé, além de um monte de outras coisas. A gente deve aprender isso lá pela sexta série, na aula de ciências (ou teria sido no Ensino Medio?), quando a maioria de nós também ja ouviu, àquela altura, sobre a criação no homem no Jardim do Éden. Com certeza, com 12 anos, nossas sinapses não eram capazes de contrapor as duas teorias, sem falar que o ensino que tivemos não nos permitia muito fazer sinapse alguma.

Tudo isso pra falar do meu amigo Charles Darwin. Trato-o como amigo por estar na terra onde ele nasceu, estudou, escreveu a Teoria da Evolução das Espécies e morreu, e também por ter passado três horas mergulhada em uma exposição dedicada aos 200 anos da publicação do seu principal livro. A mostra é uma viagem por seu pensamento, desde que começou sua coleção de besouros como estudante de História Natural em Cambridge até retornar do navio Beagle em sua volta pelo mundo, se recolher em sua casa de campo por décadas e ficar matutando porque, afinal, tantos animais da mesma espécie desenvolvem peculiaridades distintas conforme o lugar em que vivem, e porque raios os filhos se parecem com os pais, que se parecem com os avós, que se parecem com os bisavós etc.

Saí do Museu de História Natural querendo pegar o primeiro voo para as Ilhas Galápagos. Mas aí o pensamento foi se acalmando e me deu vontade de compartilhar aqui dois aspectos da exposição, um ligado à sua personalidade e outro à sua vida pessoal.

Tudo bem que ele era rico, estudou em boas escolas e entrou na melhor universidade. Teve sorte, diriam. Mas não se pode chamar de sorte o fato do cara ter topado embarcar em uma exótica expedição pelo mundo sem receber um só tostão por isso. Pelo contrário, a família ainda teve de, digamos, “patrociná-lo”. Os pais, aliás, eram contra aquela ideia maluca, então Darwin teve um trabalhão para convencer todo mundo. Vencida esta etapa, teve poucos meses para se preparar, levando consigo somente uns instrumentos rudimentares e uma pistola. O rapaz de vinte e poucos anos foi indicado por um professor da universidade (a Inglaterra queria um naturalista no grupo visando aprimorar a elaboração de seus mapas). Moral da história: Muitas vezes erramos em chamar de sorte vitórias alheias sem atentar para o esforço pessoal que levou aquela pessoa a estar no lugar certo na hora certa. Puro desdém de quem não tem coragem suficiente para tomar as rédeas da vida e se conforta em atribuir à sorte o sucesso de outras pessoas.

Outra passagem curiosa da vida dele ocorre na volta da viagem. Embora tivesse certeza sobre o rumo que sua vida científica iria tomar, entrou em um profundo dilema sobre se deveria ou não se casar. Acabou cedendo. Escreveu para uma prima solteira lhe pedindo a mão. Ambas famílias concordaram e o casório aconteceu. Tiveram vários filhos e um casamento até que a morte os separou.

Em vez de passar a achar que a família havia se tornado um empecilho para o livre desenrolar de sua teoria, ele praticamente “usou” todo mundo em seus estudos. Nos seus livros, cita evidências baseadas em sua vida doméstica, obtidas a partir da observação do crescimento dos filhos ou das fotos de família, onde todos se pareciam muito uns com os outros.

A primeira lição que tiro desta parte é que até as mentes brilhantes se veem encurraladas entre abrir mão de seus projetos pessoais e dividir a vida com um marido ou esposa, o que traz conforto para nós, simples mortais. A segunda é que, caso não consiga resistir e acabe se entregando ao enlace matrimonial, que procure tirar o melhor proveito disso, em vez de ficar reclamando a liberdade que perdeu.



Escrito por Patrícia Diguê às 11h58
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